segunda-feira, 20 de abril de 2009

Exercício

Proponho um exercício.

Na tentativa de descobrir quem, além de minha esposa, minha mãe e minha sogra, lê o que escrevo aqui, resolvi propor um exercício que fiz, faço e continuarei fazendo. Mas também gostaria de ouvir outras pessoas e seus pensamentos.

Li hoje que somos vários dentro de nós mesmos, gostei da imagem que isso criou na minha cabeça. Meu tio uma vez falou isso sobre as relações que tenho com as pessoas. A princípio não me pareceu um elogio (quer dizer que não tenho personalidade?). Mas depois, mastigando melhor, percebi (talvez por querer transformar aquilo em elogio) que essa multiplicidade de “eus” é importante e quanto mais você a exercitar, mais você consegue ampliar seu raio de ação e mais possibilidades você tem de aprender com coisas diferentes. Só para ilustrar, o Rodrigo que conversa com a ex-orientadora do mestrado, não é o mesmo que fala com o pessoal do futebol, nem o que fala com o porteiro do prédio, nem o que fala com a síndica, nem o que fala com os pais, etc. Todos eles têm um fio conector, mas a troca de registros nas diferentes situações torna as interações mais fluidas. Experimente trocar esses registros de lugar: o Rodrigo do futebol falar com a orientadora; o do porteiro falar com a síndica; o da síndica falar com os pais. No mínimo você irá causar um estranhamento e talvez um bloqueio que impossibilitará você de extrair daquela situação ou daquela pessoa ensinamentos ou experiências que você poderá levar na sua bagagem.

Bem, mas não é exatamente sobre esse ponto que quero propor o exercício. Ele é apenas o ponto de partida.
Tendo em vista essa multiplicidade (uns podem enxergar ela menos ampla e outros mais em si mesmos, mas ela existe, acreditem), gostaria que cada um pensasse em alguma coisa que tenha feito, realizado, concluído ou participado e que considera seu “legado” (até agora) para este mundo. Qual desses “eus” realizou algo do qual você tem mais orgulho e o que foi? E o exercício consiste nisso, escolher o mais importante em sua opinião e verbalizá-lo.

Não se preocupem, não espero que ninguém responda que descobriu a vacina para o câncer, ou que resolveu o problema entre israelenses e palestinos, e nem que levou Fidel para comer no McDonalds em Nova York depois de um jogo dos Knicks. Já escrevi neste espaço que aprecio o brilhantismo da simplicidade. A maioria das realizações mais grandiosas e geniais é feita dentro da sua casa e provavelmente com alguém da sua família. Então, não há necessidade de buscar por algo gigantesco; o “mundo” que se dê ao trabalho de enxergar o seu micro-legado e aplicá-lo em proporções maiores se quiser beneficiar-se dele.

Para quebrar o gelo, vou começar. Acredito (ou quero acreditar) que tenha feito algumas coisas nesses poucos anos das quais me orgulho. É claro que muitas delas trouxeram benefício grande para mim mesmo, em termos de amadurecimento, crescimento e aprendizado. Mas posso dizer que algumas tocaram de uma forma mais ou menos forte algumas pessoas ao redor. Mas como eu mesmo pedi que fosse descrito o que você considera o mais importante, preciso me ater a um. (Relendo a última frase me senti Gandhi escolhendo um entre os muitos feitos gigantescos para a humanidade. Garanto não ser este o caso.)

Mas acredito que o meu legado até o momento seja meu relacionamento a dois. Vou tentar explicar por quê. Nossa história não é das mais convencionais, e virou até “causo” divertido para ser contado. Por conta de um passado, um início turbulento e muitos desafios a dois, creio que nos fortalecemos e hoje possuímos uma estrutura que sustenta os nossos bons e maus momentos. Não estou dizendo que descobrimos uma fórmula e nem que irá durar para todo o sempre, mas irá durar enquanto os dois quiserem que dure, o que é mais importante. Com surpresa percebemos algum tempo atrás que em determinados momentos, para algumas pessoas, servíamos de modelo — algo a ser buscado. Ressalto que não quero dizer com isso que somos um casal perfeito, isso não existe. Erramos, brigamos e tudo mais. Mas temos aprendido a lidar com as imperfeições um do outro, das situações e dos momentos, de modo que nos dedicamos um ao outro quando do surgimento de qualquer obstáculo. Estamos confortavelmente sentados em um banquinho onde o assento é o amor e as quatro pernas que o sustentam são respeito, bom humor, cumplicidade e sexo. Só o assento sem as quatro pernas não adianta; e as pernas sem o principal (o assento), de nada valem. Obviamente, adequações precisarão ser feitas com o passar das décadas, mas rogo para que São Viagra me permita ter um banquinho de quatro pernas durante muito, muito, muito tempo...

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