quarta-feira, 31 de março de 2010

Um efusivo e saudoso abraço a Armando Nogueira

No último dia 29, Armando Nogueira partiu para rever Garrincha e nos deixou órfãos da leveza e singularidade maestrais com as quais tratava do mundo da bola. Dentre seus muitos feitos jornalísticos, o que mais me encanta é a forma simples e cândida como verseja sobre uma paixão tão rústica e densa - o futebol.

Os que o conhecem, sabem do que falo; os que não, têm uma boa oportunidade de experimentar algo novo.

Escolhi para homenageá-lo uma crônica que ele escreveu por ocasião dos 25 anos do falecimento de Nelson Rodrigues. O poeta da bola falando sobre o contista da mesma – achei pertinente a dupla homenagem, além do que não poderia deixar o Fluminense de fora.



"Nelson Rodrigues, 25 anos sem ele


Até os idiotas da objetividade têm saudades do maior cronista do futebol mundial


Há 25 anos, morria Nelson Rodrigues a quem sempre considerei o maior cronista esportivo do Brasil e do mundo. Nunca pretendeu ser um catedrático, um “expert” na matéria, mas ninguém jamais conseguiu ver o futebol com o olhar contemplativo, poético e apaixonado com que Nelson o viu durante mais de meio século.

Nelson era míope, enxergava pouco, mas tinha uma espantosa sensibilidade para recriar uma partida de futebol, dando-lhe tintas ora épicas, ora dramáticas, ora patéticas.

Uma explicação. A meu juízo, o jornalismo esportivo se divide em três categorias profissionais: o repórter, que lida com a informação, o comentarista, que se ocupa da análise dos fatos e, por fim, o cronista, que não tem maiores compromissos com a realidade.

Nelson tinha plena consciência do seu papel. Ele pouco se lixava para as verdades e versões em torno de um jogo ou de um jogador, de um gol, de um triunfo ou de uma derrota.

– Se os fatos estão contra mim, azar dos fatos... – era o que me respondia quando eu discutia com ele sobre futebol.

Confesso que levei muito tempo até perceber que Nelson tinha razão. Afinal, se não dá pra imaginar o futebol alheio à realidade dos fatos, muito menos dará pra imaginá-lo alheio à fantasia, que era o universo preferido por ele.

Era um otimista desvairado. Torcia pelo Fluminense. Pelo Fluminense distorcia, também. A seleção era, para ele, a pátria de chuteiras.

Cigarro ‘Caporal Douradinho’ entre os dedos, olhar manso, voz cansada, ele sempre me perguntava à saída do Maracanã: “E então, Armando, o que é que nós dois achamos do jogo?” A pergunta tinha apenas sabor de saudação. Ele não queria ouvir a opinião de ninguém. Preferia, sempre, a dele próprio, que não vinha do campo. Vinha de um sonho de 90 minutos. Nelson recriava o jogo, indiferente à realidade. Os fatos estavam contra ele? Pior para os fatos.

Via o jogo ao lado de Gravatinha. Pânico na área do Fluminense: beques vencidos, goleiro batido, a bola quase entrando no gol de Castilho. Um dedinho invisível desviava a bola pela linha de fundo, salvando o gol certo. Milagre do Gravatinha, ditoso personagem que ele criou para explicar as inexplicáveis vitórias do Fluminense. Era o almofadinha. O pó-de-arroz nato e hereditário.

O oposto do Sobrenatural de Almeida. Sobrenatural era o vago sinistro. Não torcia especialmente por ninguém. Tramava na pequena área, às vezes contra, às vezes, a favor.

Jogador do Fluminense não era gente como nós, de carne e osso. Era entidade. Cada um com sua aura. Rodrigo, atacante de parco futebol, revivia, no campo, Cid, o Campeador, herói espanhol do século XII. Assim, Nelson o retratava em sua crônica. Épico. Assim a torcida tricolor o saudava na rua e no estádio. O time do Fluminense, do goleiro ao ponta-esquerda, jogava de sandálias – as pungentes sandálias da humildade. Era a mitologia tricolor na prosa esplêndida de Nelson. Frases musicais. Metáforas sempre primorosas. Pérfidas, quase sempre. Eu mesmo amarguei a pena impiedosa dele. Nunca perdoou que eu tivesse descoberto na seleção húngara do Mundial de 54 uma equipe melhor do que a brasileira.

Nelson Rodrigues, amável carrasco do meu sensato amor pelo futebol. Passei a vida inteira para descobrir que ele tinha razão: o futebol não é nada sem o delírio, sem o doce desatino da paixão. Como a que ele viveu pelo Fluminense e pela Seleção."
 

segunda-feira, 22 de março de 2010

descrição da situação ao modo Tatiana de ser!!!

Agora ao modo Tatiana de ser !
Moro no mesmo apartamento, vi e revi essa história várias vezes ao longo desses quase 3 anos que estamos aqui...mas de tudo o que li, o mais representativo de tudo é a foto do macaco. Eu me vi naquele macaco !!!!! Não poderia haver uma foto mais ilustrativa da minha cara durante as idas e vindas de cada encanador ou pedreiro que esteve aqui...vou explicar com uma analogia e vcs me entenderão perfeitamente e tenho certeza que serão tão compreensivos qto eu e se passassem pela situação tbem se veriam naquele mico!!.


Pense na seguinte situação: eu, dentista, tenho um consultório. Vc, paciente, vai ao meu consultório e pede para restaurar um dente. Beleza, eu OLHO O SEU DENTE digo que será um procedimento simples e marco um horário para vc voltar. Tudo noos conformes.
No dia que marquei, vc sai mais cedo do trabalho, passa a maior lábia no chefe e diz que vai ao dentista e aproveitará para resolver todas as suas pendências naquela  tarde (vc já aproveitou para aumentar um pouquinho seu sofrimento porque, afinal, ida ao dentista é sempre um tormento, né, e seu chefe que já fez tratamento de canal sabe disso e foi super-solícito !). Então, vc planejou que sairia do meu consultório e aproveitaria p passar no shopping ou pagar contas... Nesse dia, com horário MARCADO, eu chego 2 horas atrasada! Vc já perdeu metade do seu passeio, mas enfim eu cheguei. Mando vc enrar com um sorriso cínico nacara de quem nem lembra que marcou com vc 2 atrás. Vc entra, senta na minha cadeira eu olho seu dente e digo: "vixe, acho que não tenho a broca certa, esqueci de comprar a broca. Mas não se preocupe, vou usar essa aqui mesmo que é quase a mesma coisa". Vc tá lá confiante, boca aberta. Daqui a pouco eu falo o seguinte "vixe, tá maior do que eu pensava... vou ter que abrir mais o seu dente porque naquele dia a luz do refletor não estava boa e eu não sabia que a cárie estava tão grande !” Vc não esperava por essa, afinal EU JÁ TINHA OLHADO SEU DENTE ANTES, começa a ficar incomodado e além disso já começa a duvidar da minha competência. Mas eu digo pra vc: "fica tranquilo, isso acontece muito”. Tenho certeza que na hora vc vai se perguntar se acontece muito ou se acontece muito COMIGO!!”

Continuamos mais um pouco, a luz do refletor apaga, não consigo consertar e portanto não enxergo seu dente direito. Começo a suspirar, levanto do meu mocho várias vezes procurando material pelo consultório, xingo a secretária de incompetente...até que te falo que não tenho a cor da resina que tinha que colocar no seu dente. Então, enfio uma massa cor de rosa provisória no tal dente, te mando para casa e marco com vc outro dia!” Detalhe, o dente que eu estou mexendo é o da frente !!! Tenho certeza que vc vai compreender que isso é perfeitamente normal, sua paciência e compreensão são infinitas e logicamente entende que esse nenhum dentista tem todo  material necessário à mão para qdo precisar. Além disso, com certeza seu chefe vai te liberar mais uma ou 2 tardes porque as coisas acontecem assim mesmo (e ele é o melhor chefe do mundo !!) !

Não?! Vc não entenderia?! Nossa, como vc é irracional!!!

Pois é,  algo mais ou menos assim acontece com os profissionais que a imobiliária manda para consertar as coisas nesse apartamento. O cara chega p consertar um cano e não traz chave-inglesa. Chega para arrumar uma descarga e não traz chave de fenda. Vem colocar um chuveiro e esquece a escada e a fita isolante! Além, é claro de nunca chegar no horário marcado.

E eles não entendem porque é que eu me irrito e pergunto se eles "sabem o que estão fazendo!?" Tbem não entendem porque eu faço cara de "miss-limão" qdo eles dizem simplesmente boa tarde!
Nunca conseguem resolver nada em um dia porque nunca trazem o material todo (ou em alguns casos: o mínimo!). E ainda tem a cara de pau de querer que eu fique em casa para que venham "A PARTIR DAS 13:00"... como entrega de loja: vc que espere a tarde toda e seu emprego que se ferre!!!!!!
Afinal, de quem é o dente, meu ou seu???????


domingo, 21 de março de 2010

Casa-escola

Não me entendam mal, considero louvável a arte de aprender com o ofício. Mas certas coisas têm um limite.

Este fim de semana, descobri o conceito de casa-escola. Vou tentar explicar.
Sabe aqueles serviços de casa que nós, na maioria das vezes, não fazemos por acharmos que a chance de fazermos merda é grande?

Pois é, “SEUS POBREMAS SE ACABARAM-SE!” Chegou a CASA-ESCOLA. A casa-escola é o lugar onde você aprende fazendo.

O apartamento em que moramos tem alguns problemas crônicos, no banheiro social, no banheiro de empregada, na cozinha, enfim... E conforme os anos foram passando, fomos descobrindo um a um. E invariavelmente os problemas foram se mostrando resultado deste conceito. Vou tentar ilustrar com o exemplo da última semana que se desenrolou no sábado.
Nosso banheiro do fundo apresentou um problema na descarga, ela disparou e não voltou mais. Fechamos o registro e aguardamos no sábado passado a visita do funcionário da imobiliária (quem acompanha o blog já deve ter ouvido falar da figura). Como esperado, ele não apareceu, não deu notícia e, na segunda, a funcionária da imobiliária ligou me pedindo desculpas. O funcionário dela alegou que havia perdido a hora e por isso não tinha aparecido. Ela se comprometeu, então, a mandar alguém durante a semana para adiantar o trabalho quebrando a parede e deixando tudo preparado para a troca no sábado seguinte.

Durante a semana, Sebastião veio, quebrou e adiantou o serviço. Marcamos o retorno dele para o sábado 8 horas da manhã para que eu pudesse estar presente sem prejudicar minha pelada às 10h.

Obviamente ele chegou às 8:45h. Pediu que eu fechasse a água rapidinho que em 10 minutinhos estaria tudo pronto. Chamei o administrador e fui junto com ele ao telhado fechar o registro geral. Quinze minutos depois, ao retornar, encontrei a Tatiana na cozinha soltando fumaça pela venta e com uma tromba enorme. Percebi que o chão da cozinha estava com azulejos e pedaços de tijolos quebrados. Também notei que conseguia enxergar, da minha cozinha, o banheiro de empregada e a cara do Sebastião lá dentro. Confesso que na hora procurei aquele miquinho da propaganda dos tubos Tigre. Acho, inclusive, que vi um cortando cebola pra Tatiana e outro espirrando em cima da geladeira por causa da poeira.

Perguntei o que havia acontecido. Sebastião respondeu que aquela descarga era das antigas, era grande e que ele teve que quebrar para conseguir tirar. Discretamente perguntei à Tatiana se outra pessoa tinha vindo durante a semana e ela disse que não, que era ele mesmo. Acompanhe meu raciocínio, se ele veio durante a semana pra deixar tudo quebrado e pronto para a troca no sábado, porque o infeliz não quebrou tudo logo de uma vez? Até porque a parte da descarga que seria trocada estava toda visível dentro do banheiro, ele não pode dizer que não viu que tipo de descarga era. Vem durante a semana e faz o quebra-quebra todo para adiantar ou não vem e faz tudo no sábado, certo?

Depois de instalar a nova descarga ele começou uma batalha para encaixar o cano novo. Ele comprou um pedaço de cano maior que o necessário e ficava tentando encaixar uma extremidade no cotovelo que dava para o vaso e a outra na nova descarga. Precisou de quatro tentativas para ele encontrar o tamanho certo para o encaixe. Vou tentar explicar a dinâmica: encaixa a parte de baixo, esquenta a outra extremidade, tenta encaixar na descarga, bate na lateral da mesma, desencaixa a parte de baixo serra um pedacinho e recomeça o ciclo. Entendeu?

Quando finalmente conseguiu e vedou tudo ele pediu que eu ligasse a água. Pedido atendido rapidamente. Retornei para ver o resultado e ele não conseguia fazer a água descer pela descarga. Testou a torneira da pia, água; testou o chuveiro, água; deu descarga, nada. Tive que ouvir: “Nunca vi isso acontecer. Você tem certeza que abriu a água?”
Deixe-me ver, retornei para a posição “Aberta” a mesma válvula que eu havia fechado 40 minutos antes. Água sai da torneira da pia, água sai do chuveiro... Abri a água, concorda comigo?

Fiquei parado na porta do banheiro assistindo ele apertar insistentemente a válvula (como aquelas pessoas que apertam insistentemente o botão do elevador como se isso fosse fazer alguma diferença). Fiquei me perguntando qual seria o procedimento mais óbvio a ser realizado caso eu, leigo, me visse diante daquela situação. Pensei, “Acho que afrouxaria aquele parafusinho do meio para deixar aquela mola mais solta e ver se faz alguma diferença”. Sem eu dizer uma palavra e cinco minutos depois de apertar incansavelmente o diabo da válvula sem sucesso, ele teve a mesma idéia que eu. Ação realizada, descarga dada, água fluindo normalmente.

Diante de mais este exemplo, entendi a função este apartamento na formação de alguns profissionais. Ele já serviu de aprendizado para futuros eletricistas, instaladores de boiler, encanadores, pedreiros, pintores e sabe-se lá o que mais.

Entendo que para se aprender com o ofício é necessário praticar e exercitar este ofício até que se consiga absorver a experiência e a bagagem de conhecimentos e habilidades necessárias para a função escolhida.

O que não entendo é por que todo mundo no Rio de Janeiro inventa de começar a aprender um ofício no apartamento onde moro!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Herrar é umânu

Nasci.

Até aprender a me expressar, fiz barulhos.

Até aprender a andar, caí sem parar.

Até aprender a usar o vaso, fiz na fralda.

Até aprender a falar direito, machuquei a gramática.

Até aprender a andar de bicicleta, ralei muito o joelho.

Por que é que quanto mais a gente cresce e mais simples ficam os aprendizados, menos toleramos nossos erros?

Disse “a gente” para me sentir mais à vontade, incluam-se fora dessa os que assim desejarem.

Quantos acertos você tem ao longo do dia? Pare para pensar, consegue se lembrar de algum? Provavelmente você se lembrou de algum ou nenhum, certo?

E quantos erros você cometeu ao longo deste mesmo dia? Alguns, não é? E você até consegue enumerá-los, estou certo de novo? Não se preocupe, não vou pedir para dizer quais. Mas mesmo quando não reconhecemos algum erro para os outros, não quer dizer que não saibamos que erramos. Introspecte-se (Machado que me perdoe!).

Se não é esse o seu caso, se o que eu disse lhe parece absurdo, aconselho seguir daqui para o do Bruno Mazzeo (http://bloglog.globo.com/brunomazzeo/).

Agora, se você acompanhou meu raciocínio até aqui, e vê algum sentido no que digo, eu pergunto: Por que é que esquecemos/ignoramos as dezenas de acertos que temos do momento em que acordamos até a hora de dormir?

Já parou para pensar na grandiosidade dos feitos de aprender a andar, a falar e a controlar suas funções orgânicas? Pois bem, se você acordou, deu bom dia para alguém e não mijou na cama... Parabéns! Em mais ou menos 10 segundos você já contabilizou 3 acertos para o seu dia. Aplique esse raciocínio e você verá que, por mais ridículo que pareça, ele mostra que tendemos a deixar de lado os acertos e nos concentrar nos erros.

Existe uma diferença entre querer acertar e não querer errar. No primeiro caso, o erro faz parte do processo; no segundo ele mina o aprendizado.

Aprender é arte. Aprender a errar é técnica.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abrolhos

O barco que nos levou a Abrolhos chamava-se Imagine.





Imagine uma viagem que parece que tatua imagens na sua retina... pois é, Abrolhos é assim.







Imagine um lugar praticamente inabitado, preservado, sem a nossa interferência... pois é Abrolhos é assim.





Imagine um lugar onde você fecha os olhos e mira sua câmera para qualquer lugar em 360 graus e a foto fica linda... pois é, Abrolhos é assim.






Imagine um lugar em que você tira a sua melhor foto, a mais bela, e ainda assim ela não reflete o que seus olhos vêem... pois é, Abrolhos e assim.






Se você tiver a oportunidade em algum momento, não deixe de ir. Se puder criar essa oportunidade, o faça. A viagem é cansativa, são duas horas e meia de ida em um barco pequeno sem conforto e o mesmo tempo de volta. Mas as horas que você passa lá, na energia do lugar, fazendo parte daquela beleza, nadando naquela água, desfrutando do visual em cima e embaixo d'água fazem você esquecer de tudo e não ter mais vontade de sair de lá.





Hoje, eu conheço mais matizes do azul do que os esquimós do branco. 

A viagem

Precisava de um motivo especial para estrear o blog em 2010. Encontrei!

Prestes a adentrarmos a zona conhecida por abrigar a crise dos 7 anos, minha capanhera e eu conversamos, analisamos os feriados e vimos que nossa única possibilidade no ano seria viajarmos no carnaval. Eu tinha um dia de folga na editora e poderia alocá-lo na quinta-feira (pós-quarta de cinzas).

Uma vez identificado o momento, partimos para a decisão seguinte... pra onde?

Abrimos o mapa, o site da Gol e começamos a conversar. Exclui daqui, elimina dali, calcula tempo, calcula dinheiro... decidimos, vamos conhecer os lençóis maranhenses. Pesquisamos pousadas, custo, pacote, etc. Dois dias depois, saia nota em O Globo “Lençóis Maranhenses estão secos”. Resumindo, o que era um mundaréu de água tinha virado uma poça.

Mudança repentina de planos, preocupação, dúvida, e agora?

Eis que a louca do mapa me liga na editora: “Vamos pra Caravelas!”

Eu, então, como macho Alva da relação, decidi: “É, vamos mesmo.”

Ela pesquisou pousada, pacote, passeio e organizou tudo. Estávamos preparados para seguir para a Bahia, com o Táta 2 (veículo 1.0 também conhecido pelos menos íntimos como tartaruga), para ficar em Caravelas e passear por Abrolhos. Uma verdadeira aventura.

A IDA
Sexta-feira de carnaval, 14h, conforme combinado, ela me apanha na editora para ganharmos tempo e tentarmos evitar o trânsito da saída ponte e do primeiro trecho da estrada (pra quem não conhece é por onde passa 80% do Rio de Janeiro que viaja no carnaval)

Primeiro diálogo da viagem:

- Viu meu e-mail?
- Não.
- Como não? (olha o cheiro da crise dos 7 anos...)
- Não vi, tive que almoçar com uma autora e não liguei o computador na volta.
- Não consegui fazer a transferência para pagar a pousada, pedi pra você fazer no Real.
- O caixa eletrônico não faz. Vamos pagar com o cartão quando chegarmos lá.
- Tá. Você está com o MasterCard, né?
- Não, está em casa. (olha o cheiro ficando mais intenso...)
- Mas eu falei que eles só aceitam MasterCard!
- Eu sei, mas não peguei quando saí!
- E agora?
- Não sei, liga pra pousada e pergunta o que dá pra fazer.
- Não trouxe o telefone de lá.
- E o endereço?
- Quer que eu lembre de tudo?! (pronto, a catinga havia tomado conta do ambiente)

Tivemos de voltar em casa. Pegamos cartão, endereço, telefone e aí sim seguimos viagem. Iniciamos 15:20 da tarde, passando pela frente do Maracanã. Nossa meta, pelos cálculos e indicações de um amigo de Vitória que conhece a estrada, era chegar em Vitória entre 9 e meia e 10 e meia da noite. Dormiríamos e seguiríamos no dia seguinte pela manhã até Caravelas.

Ponte tranquila, primeiro trecho tranquilo, o sol brilhava, a música tocava no rádio, tudo era engraçado... até o primeiro quebra-mola na entrada de Campos. A BR101 que contorna e cruza parte da cidade estava literalmente parada. Foram quase 2 horas e meia até que deixássemos a cidade (um trecho feito na volta em 10 minutos). Detalhe, eram quase 10 horas da noite e estávamos na metade do caminho até Vitória (que, por sua vez, era metade do caminho até Caravelas).

Campos superada, seguimos adiante, era noite, já não estávamos tão risonhos e a música era trocada constantemente. Onze e meia, olhos cansados, bunda quadrada, estrada ruim, resolvemos encostar para procurar um hotel. Em Iconha fomos aconselhados a voltar 8 km e ficarmos em um hotelzinho na beira da estrada, pois Vitória ainda estava um pouquinho distante, cerca de uma hora e meia.

Fizemos isso, avistamos o tal do hotelzinho, com um boteco ao lado. O hotel parecia estar fechado, estava todo apagado. Resolvi descer para perguntar. Quando cheguei no balcão, e aguardava a moça reunir boa vontade para me atender, notei que o amor estava no ar. Casais apaixonados se beijavam ardentemente, enfim, o clima era de pegação. Perguntei do hotel e a moça respondeu: “Tem que tocar a campainha para pedir a chave.”

Neste momento eu estava com 3 neurônios acordados, mas um eles estava muito cansado e havia ficado no carro. Os dois que me acompanharam estavam mais atentos, um disse: “Olha, tem coca-cola gelada!” Já o outro teve uma visão macro da situação: “O imbecil, te manda que isso aqui é um puteiro!”

Embora quisesse muito a coca-cola gelada, entrei no carro e sugeri que seguíssemos até Vitória.

Aportamos pouco antes de entrar em Vitória por volta de 1 e 15 da manhã, no motel que tinha mais luzes (era o único que meu olhos conseguiam enxergar àquela altura).

Comemos e dormimos, quase que simultaneamente.

Acordamos às 9 horas e seguimos por dentro de Vitória, desbravando a terra dos Rueff Camisasca. Tomamos café e deixamos a cidade rumo ao objetivo final – Caravelas.

Pouco tempo depois, entre Serra e Fundão (sim, até no carnaval a Tatiana precisa passar pelo Fundão, isso se chama dedicação) o trânsito parou. Foram mais 2 horas de engarrafamento ao longo de um trecho ridiculamente pequeno. Nesse momento, uma prática que me incomoda bastante passou a me irritar, a ultrapassagem pelo acostamento. O que essas pessoas têm na cabeça, sério? O que passa pelo cérebro de uma criatura assim? Porque pra mim é matemático, se engarrafou é porque em um determinado trecho há mais carro do que o espaço permite deixar fluir. Logo, se você vai pelo acostamento e acrescenta mais carros ainda, o trânsito ficará ainda mais lento. Dããã. E o pior, essas pessoas devem pensar assim: “Foda-se, não sou eu que vou estar lá atrás mesmo”. Mas elas não percebem o erro que cometem. Além de colocarem em risco a vida de um terceiro e da sua própria família, elas dão um péssimo exemplo, na grande maioria das vezes, para os filhos que estão no carro. O recado é basicamente o seguinte, filho, contanto que você se dê bem, pode deixar de lado as leis e regras estipuladas pela sociedade para um convívio harmonioso e pacífico. E eu tenho certeza de que esses mesmos motoristas de acostamento ficam “indignados” ao verem nos jornais políticos escondendo dinheiro, etc, etc, etc. O que eles não pensam é que provavelmente os exemplos que essas pessoas tiveram são os mesmo que eles estão dando para os filhos.

Passamos Fundão, graças a Deus! A partir daí a viagem seguiu tranqüila, apesar dos muitos caminhões e da pista em mão dupla durante todo o caminho. Aliás, em decorrência disso, desenvolvemos um novo tipo de ultrapassagem – ultrapassagem por constrangimento. É mais ou menos assim, você fica tempo suficiente atrás de um carro, ônibus ou caminhão sem conseguir ultrapassá-lo. O resultado é que a pessoa fica tão constrangida que para no primeiro posto, encosta no acostamento ou se joga da estrada para deixar você passar.

No trecho final da viagem, para evitar uma estrada de chão de 60 km, optamos por dar uma voltinha a mais até Caravela, passando por Teixeira de Freitas e Alcobaça. Acrescentamos mais uns 80 km além do que pensamos em percorrer.

Chegamos ao destino final por volta das 17:30. O prêmio após a primeira metade da Odisseia foi um visual lindo nos fundos do hotel, um pôr do sol avermelhado, uma praia vazia e uma água quentinha!!!

A ESTADIA
As imagens falam por si. Sol, tranquilidade, boa companhia, praia, boa comida, belo visual...












A VOLTA

Optamos por sair na quarta e cinzas cedo para evitarmos o trânsito de volta para Vitória. Nossa ideia era novamente chagarmos até Vitória e seguirmos pela Rodovia do Sol, para conhecermos o litoral.

Fomos muito bem até Vitória, chegamos no início da tarde. Conhecemos um pedaço da cidade, passamos pela terceira ponte e entramos em Vila Velha. Aportamos em algumas praias para fotos e seguimos pela tal Rodovia do Sol até Guarapari. Passeamos por uma das praias, mais fotos e decidimos que aproveitaríamos o finzinho de dia para tentarmos chegar até Cachoeiro de Itapemirim, terra do Rei, e ganharmos alguns km a menos no dia seguinte.

Chegamos em Cachoeiro às 20h, após um breve erro no percurso. Comemos e dormimos. Acho que sabíamos o que nos aguardava no dia seguinte.

Saímos de Cachoeiro às 9h, às 14h estávamos no trevo de Rio Bonito, quando tudo parou. Sério, parou! Um pouco depois, cheios de fome, resolvemos, assim como outras 3.572 pessoas, comer alguma coisa no Kiosque do Alemão. Maldita hora, vim conversando com aquele maldito pão com lingüiça até a Ponte Rio-Niterói. A partir do Kiosque foram cerca de 3 horas para andar 9 km. Em determinado momento uma moça que estava no carro ao lado, saiu para fumar e foi caminhando. Passamos por ela minutos depois, sentada na divisória das pistas esperando o carro em que ela estava passar.

Manilha parada, Ponte parada, Praça da Bandeira 18:30h e, finalmente, lar doce lar!

Acho que iniciamos bem a crise dos 7 anos.

Se você me perguntar se eu faria tudo de novo, passando pelos mesmos perrengues, eu diria que para fazer o que eu fiz e ver o que eu vi... sem dúvida!

Obs. Notaram que não mencionei Abrolhos? Pois é, merece um post especial.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Adeus

Confesso que quando você chegou eu não esperava muito de ti, as preocupações eram muitas, as dúvidas eram grandes, havia incerteza, uma certa ameaça pairava no ar, não me sentia confiante naquele momento.

Algumas expectativas se concretizaram, alguns desafios foram vencidos, algumas batalhas continuam sendo travadas; mas o fato é que nosso relacionamento está chegando ao fim. Que não me ouçam, estou feliz por isso.

Nem tudo foi ruim, óbvio. Mas estou um tanto saturado da tua presença, preciso não ter mais você por perto. Tivemos bons momentos, conquistas, alegrias, sem contar o quanto você me ajudou a amadurecer, tanto pessoal quanto profissionalmente. Disso eu irei me lembrar o resto da vida.

Mas não podemos seguir juntos por mais tempo, para mim é impossível; e eu também não gostaria que continuássemos juntos mesmo que fosse. Desculpe, estou sendo sincero para que você entenda que é importante para mim seguir em frente, vivenciar outros relacionamentos como este, muitos se possível for!

Não me leve a mal, terei você no meu pensamento sempre, contarei nossas histórias àqueles que estiverem dispostos a ouvir; e àqueles que não tiverem, direi que valeu à pena.

Não quero parecer sentimental demais, por isso opto por encerrar por aqui.

Obrigado por tudo!

Adeus 2009!!!


sábado, 19 de dezembro de 2009

Flash Mob


Acredito que nem todos saibam o que é Flash Mob. Eu aprendi recentemente, desculpem o atraso!

Wikipedia: Flash Mobs são aglomerações instantâneas de pessoas em um local público para realizar determinada ação inusitada previamente combinada, estas se dispersando tão rapidamente quanto se reuniram. A expressão geralmente se aplica a reuniões organizadas através de e-mails ou meios de comunicação social.

Achei (em alguns casos) a mobilização de uma criatividade e brilhantismo ímpares. É bem verdade que ao navegar pelo Youtube você vê todos os tipos possíveis dessa mobilização, mas poucos saem da mesmice.

Estava vendo um programa da Oprah (sem julgamentos, por favor, estou de férias e tratava-se de uma pesquisa antropológica particular) e em um evento de abertura de temporada, ao vivo, no meio de Chicago, durante uma apresentação do Black Eyed Peas, deparei-me com aquilo. Era como se houvesse uma contaminação que se disseminava e fazia com que todos (era muita gente!) participassem daquela apresentação. Fiquei espantado (assim como ela, que não sabia e nem esperava por aquilo) com a mobilização e a organização, tanto de quem orquestrou quanto de quem participou.

Coloquei o link abaixo para que possam dar uma olhada.


Oprah:

Vídeo retirado em razão da determinação do Ecad de cobrar para reprodução de vídeos do Youtube.



Quando fui rever na internet, acabei passeando por vários outros, e um me encantou em especial. O lugar, as pessoas, a incompreensão, o encantamento, a sensibilidade... Para minha mãe (que me apresentou o filme) e para quem gosta da Noviça Rebelde...


Noviça Rebelde:

Vídeo retirado em razão da determinação do Ecad de cobrar para reprodução de vídeos do Youtube.


Oprah Flash Mob Dance
Wikipédia: No dia 10 de setembro o grupo Black Eyed Peas quebrou o recorde de maior flash mob da história, ao reunir cerca de 21 mil fãs na Avenida Michigan, em Chicago, nos EUA para comemorar a passagem da 24ª temporada do programa de Oprah Winfrey na TV. O grupo preparou uma surpresinha para ela ao tocar o grande hit I Gotta Feeling com uma coreografia inacreditável envolvendo toda essa multidão.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Três cores que traduzem tradição


Primeiramente gostaria de deixar alguns pontos claros.


Sim, gostaria de ter sido campeão.
Não, não gostei de perder outra vez um título para LDU.

Isto posto, escrevo.

Definitivamente não sei torcer.
Os que me conhecem, ou que acompanham o blog, sabem que sou um desportista frustrado. Trocaria, sem pestanejar, o mundo dos livros, das traduções, das revisões, “da Letras” (como diria meu vizinho) por uma vaga de terceiro goleiro ou lateral esquerdo reserva em algum clube, de wide-receiver ou kicker em um time de futebol americano ou de armador em uma equipe de basquete. Adoro esporte, adoro competir, e, de uns anos para cá isso ficou canalizado para as peladas de fim de semana ou para o Playstation. Julgamento a parte, cada um é o atleta que merece.
Por isso, quando acompanho e torço pelo meu time em um campeonato, ou pela seleção, torço por inteiro, suo, vibro, grito, incentivo, xingo, pulo, bato palma, chuto, cabeceio, dou soco, converso, instruo, reclamo, defendo, ataco, só não dou entrevista no fim do jogo (ou melhor, não em rede nacional, mas ai de quem quiser falar comigo na saída do campo de jogo). Mas, assim como quem joga, depois daqueles vinte minutos pós-jogo (após o banho tomado e a cabeça mais fria) eu não consigo sustentar qualquer sentimento negativo. Seja a desilusão pela derrota, seja a raiva verdadeira de um ou outro jogador, seja o inconformismo por essa ou aquela situação, enfim... Já os sentimentos positivos passam a me tocar com muito mais intensidade.

Pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer.


Brinco e sacaneio amigos torcedores de times adversários, faz parte. É mais pela sacanagem em si do que por um sentimento verdadeiro de querer ver o outro na merda (perdoem meu francês). Hoje, estou feliz por ver o flamengo (praticamente) garantir a taça do Brasileirão. Calma, vou explicar. Obviamente queria que fosse o Fluminense, não há discussão quanto a isso. Mas, não sendo o Flu, fico feliz em ver um carioca na frente. Faz tempo que os grandes títulos ficam com as equipes de São Paulo e do Sul, e o que nos resta é fazer uma festinha por uns títulos estaduais ou um ou outro título de mais projeção. A falta de estrutura e de profissionalismo dos clubes do Rio nos impede de ver mais clubes cariocas brigando pela ponta (de cima) da tabela. Creio, ou pelo menos quero crer, que será bom para a valorização do futebol do estado.

Pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer.


Até 12 rodadas atrás, torcia para o Flu cair mesmo. Pois vi que o que estava acontecendo era um filme repetido de 96, 97 e 98. E me lembro de como conseguimos mudar a mentalidade dos dirigentes, do time e da torcida quando fomos disputar a série C. Achei que seria uma saída para o momento do clube. O que eu não esperava era que a Torcida adquirisse uma consciência torcedorística (não, não existe, mas se Machado pode eu também posso) óbvia mas quase impossível de se estabelecer – a de torcer pelo time, e não de torcer para o time quando este ganha.

Mas, pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer... pelo menos não era até agora!

Quanto a mim, encantam-me a festa, a expectativa, o canto, a luta, o clímax, o anticlímax, a entrega, os heróis, a superação, os guerreiros, a visão de jogo, a jogada, o gol, a epopéia... o resultado pode me deixar triste ou feliz, por mais ou menos vinte minutos. Já os pontos mencionados permanecem comigo.

Quanto ao time, o que dizer... Neste caso, é como uma mãe conversando com outra, seja qual for o teor da conversa, cada uma vai crer sempre que o seu filho é o mais bonito, o mais inteligente, o mais desenvolvido, o mais cheiroso, etc. Então, como já disse e repito que não acredito em imparcialidade, ressalto apenas que nosso clube nunca se propôs a ser o maior, assim como nossa torcida. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Mas essa torcida certamente é a melhor. Por favor, sem pedras, vou explicar cientificamente.

Qual clube do Brasil foi rebaixado duas vezes seguidas para a série B e logo em seguida para a série C, está há 26 anos sem um título Brasileiro da série A, perde uma Copa do Brasil em casa para um time de segunda, perde uma Libertadores em casa para um time do Equador e no ano seguinte perde para esse mesmo time a Copa Sul-americana novamente em casa? Vou facilitar a pesquisa, só tem um... o Fluminense.

Outra pergunta. Com o histórico acima, você diria que a torcida desse time colocou mais de 20 mil pagantes em média no Maracanã na disputa da série C; ou que a torcida desse time se renova e reforça a cada obstáculo, como a despedida da Copa João Havelange em 2000 com um chute quase do meio campo; ou que essa torcida conseguiria se recompor após se entregar a pseudocraques, jogadores em fim de carreira e ídolos rivais (como Felipe, Edmundo e Romário) que não souberam honrar as três cores que traduzem tradição; ou que essa torcida se reinventaria após o pó-de-arroz e abênção João de Deus, inovando com mosaicos, balões, fogos e, por fim, um corredor humano de 3 km para receber o ônibus do time até o estádio em que este mesmo time já começaria o jogo perdendo de 5 a 1? Vou facilitar novamente, SIM!

Portanto, concluindo cientificamente, em condições normais e temperatura e pressão (como diriam os pesquisadores), nenhum outro time tem esse histórico. Não tendo esse histórico adverso, não pode afirmar que sua torcida suportaria tais adversidades. Pode ser que sim, pode ser que não, mas como não passou não tem como provar. Eu tenho! Presenciei tudo isso e afirmo, continuamos cada vez mais tricolores.

Como disse Nelson Rodrigues:

“Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte da paixão.”

domingo, 15 de novembro de 2009

Expectativa e realidade

Em breve terei minhas merecidas férias. Por conta disso, estou vivenciando uma enorme ansiedade – a expectativa do ócio.

Essa expectativa, de certa maneira, está me fazendo aproveitar o período das férias antes mesmo de ele chegar. Ou seja, estou potencializando meus dias livres quando, no meu aguardar, eu me pego planejando e visualizando minhas horas livres. É possível até experienciar algumas das sensações que terei quando e se eu fizer uma determinada coisa quando eu estiver de férias. O que é meio maluco, porque, de fato, ainda estou envolvido na loucura diária dessa rotina que nos aprisiona.

Fiquei pensando, então, que, embora eu tenha 1.538 planos para as férias, eu na realidade realizarei, com alguma sorte, uns 3. Não me entenda errado, eu ficarei feliz da vida com esses 3. Mas é que eu de alguma forma vivenciei em parte todos os outros 1.535 dentro da minha cabeça antes e durante meu período de descanso. O que me trouxe algum prazer momentâneo.

Não sei se estou fazendo algum sentido, mas o que estou querendo colocar é que é possível aproveitarmos algumas experiências antes mesmo de elas acontecerem. Em alguns casos talvez seja possível experimentá-las sem que elas sequer aconteçam.

A pergunta, então, é a seguinte: Que prazer é capaz de nos entreter, marcar e preencher, o da expectativa ou o da realidade?

Não quero, de forma alguma, tirar a importância da experiência vivida. Mas queria chamar a atenção para o que precede esse momento de fato vivido. Pegue os filmes, por exemplo, no “trailer” você não precisa ver o que não lhe agrada daquele “filme”, você fica com as melhores partes compiladas de forma que despertem curiosidade e prazer. Quantas vezes você já assistiu a uma porcaria de filme porque se encantou pelo trailer?

E em nossas vidas mesmo, pare um instante para pensar em alguma experiência muito bacana e marcante que você teve. Identificou? Pois então, é grande a chance (se você puxar pela memória) de que a expectativa dessa experiência tenha alimentado seu espírito bem antes da própria experiência, e talvez por mais tempo e com maior intensidade.

Por exemplo, uma festa de aniversário que você tenha feito e que tenha sido ótima. A festa em si pode ter sido ótima, a presença dos amigos, a interação, comida, bebida, as brincadeiras, as boas risadas, enfim, um belo momento que você vai se lembrar durante muito tempo e depois se recordará quando vir as fotos (caso as tenha tirado) – mas que durou, digamos 5 horas mais ou menos. Agora pense no tempo que você levou montando esse momento na sua cabeça e planejando tudo. O tempo que você conversou com essas pessoas para convidá-las, os e-mails trocados, as compras, o pensar nos detalhes, a tentativa de equacionar tudo para que o resultado fosse o melhor, todos os momentos que você gastou pensando ou fazendo algo de fato em prol da realização da festa – certamente foram mais que 5 horas e na sua cabeça certamente diversas coisas interessantes se passaram, mas que não necessariamente aconteceram durante a festa propriamente dita. Ou seja, você curtiu muito essa festa antes mesmo de ela acontecer, mas acabamos por nos esquecer disso, e o que fica é a festa “real”.

Existem inúmeros exemplos como este: a espera do Papai Noel e da noite de Natal ou a entrega do presente; aquela viagem no feriado ou todo o planejamento e a ansiedade que você ficou na semana ou nos dias que a precederam; um show que você queria muito ir ou o nervosismo dos dias anteriores, quando você conseguiu comprar o ingresso e ficou se imaginando perto do palco, recebendo aquela palheta com a qual seu ídolo tocou naquele dia; enfim...

Em um mundo em que há muito pouco com o que se divertir sem ter que pagar nada, acho que a expectativa pode ser a saída para uma melhor qualidade de vida, qualidade de relacionamento, qualidade no local de trabalho, etc. Sugiro, então que você a exercite. Experimente trabalhar essa expectativa em uma área que não esteja “tão boa assim” na sua vida. E perceba se essa energia (que será exclusivamente positiva) trará alguma melhora para essa área.

O que eu posso afirmar é que eu já comecei o exercício e, antes mesmo de entrar de férias, tenho ido à praia todos os dias, tenho dormido até mais tarde, tenho visto filmes até de madrugada e tenho feito o que posso para fazer toda e qualquer coisa na hora mais improvável possível, apenas porque na minha expectativa... eu posso.