terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Herrar é umânu

Nasci.

Até aprender a me expressar, fiz barulhos.

Até aprender a andar, caí sem parar.

Até aprender a usar o vaso, fiz na fralda.

Até aprender a falar direito, machuquei a gramática.

Até aprender a andar de bicicleta, ralei muito o joelho.

Por que é que quanto mais a gente cresce e mais simples ficam os aprendizados, menos toleramos nossos erros?

Disse “a gente” para me sentir mais à vontade, incluam-se fora dessa os que assim desejarem.

Quantos acertos você tem ao longo do dia? Pare para pensar, consegue se lembrar de algum? Provavelmente você se lembrou de algum ou nenhum, certo?

E quantos erros você cometeu ao longo deste mesmo dia? Alguns, não é? E você até consegue enumerá-los, estou certo de novo? Não se preocupe, não vou pedir para dizer quais. Mas mesmo quando não reconhecemos algum erro para os outros, não quer dizer que não saibamos que erramos. Introspecte-se (Machado que me perdoe!).

Se não é esse o seu caso, se o que eu disse lhe parece absurdo, aconselho seguir daqui para o do Bruno Mazzeo (http://bloglog.globo.com/brunomazzeo/).

Agora, se você acompanhou meu raciocínio até aqui, e vê algum sentido no que digo, eu pergunto: Por que é que esquecemos/ignoramos as dezenas de acertos que temos do momento em que acordamos até a hora de dormir?

Já parou para pensar na grandiosidade dos feitos de aprender a andar, a falar e a controlar suas funções orgânicas? Pois bem, se você acordou, deu bom dia para alguém e não mijou na cama... Parabéns! Em mais ou menos 10 segundos você já contabilizou 3 acertos para o seu dia. Aplique esse raciocínio e você verá que, por mais ridículo que pareça, ele mostra que tendemos a deixar de lado os acertos e nos concentrar nos erros.

Existe uma diferença entre querer acertar e não querer errar. No primeiro caso, o erro faz parte do processo; no segundo ele mina o aprendizado.

Aprender é arte. Aprender a errar é técnica.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abrolhos

O barco que nos levou a Abrolhos chamava-se Imagine.





Imagine uma viagem que parece que tatua imagens na sua retina... pois é, Abrolhos é assim.







Imagine um lugar praticamente inabitado, preservado, sem a nossa interferência... pois é Abrolhos é assim.





Imagine um lugar onde você fecha os olhos e mira sua câmera para qualquer lugar em 360 graus e a foto fica linda... pois é, Abrolhos é assim.






Imagine um lugar em que você tira a sua melhor foto, a mais bela, e ainda assim ela não reflete o que seus olhos vêem... pois é, Abrolhos e assim.






Se você tiver a oportunidade em algum momento, não deixe de ir. Se puder criar essa oportunidade, o faça. A viagem é cansativa, são duas horas e meia de ida em um barco pequeno sem conforto e o mesmo tempo de volta. Mas as horas que você passa lá, na energia do lugar, fazendo parte daquela beleza, nadando naquela água, desfrutando do visual em cima e embaixo d'água fazem você esquecer de tudo e não ter mais vontade de sair de lá.





Hoje, eu conheço mais matizes do azul do que os esquimós do branco. 

A viagem

Precisava de um motivo especial para estrear o blog em 2010. Encontrei!

Prestes a adentrarmos a zona conhecida por abrigar a crise dos 7 anos, minha capanhera e eu conversamos, analisamos os feriados e vimos que nossa única possibilidade no ano seria viajarmos no carnaval. Eu tinha um dia de folga na editora e poderia alocá-lo na quinta-feira (pós-quarta de cinzas).

Uma vez identificado o momento, partimos para a decisão seguinte... pra onde?

Abrimos o mapa, o site da Gol e começamos a conversar. Exclui daqui, elimina dali, calcula tempo, calcula dinheiro... decidimos, vamos conhecer os lençóis maranhenses. Pesquisamos pousadas, custo, pacote, etc. Dois dias depois, saia nota em O Globo “Lençóis Maranhenses estão secos”. Resumindo, o que era um mundaréu de água tinha virado uma poça.

Mudança repentina de planos, preocupação, dúvida, e agora?

Eis que a louca do mapa me liga na editora: “Vamos pra Caravelas!”

Eu, então, como macho Alva da relação, decidi: “É, vamos mesmo.”

Ela pesquisou pousada, pacote, passeio e organizou tudo. Estávamos preparados para seguir para a Bahia, com o Táta 2 (veículo 1.0 também conhecido pelos menos íntimos como tartaruga), para ficar em Caravelas e passear por Abrolhos. Uma verdadeira aventura.

A IDA
Sexta-feira de carnaval, 14h, conforme combinado, ela me apanha na editora para ganharmos tempo e tentarmos evitar o trânsito da saída ponte e do primeiro trecho da estrada (pra quem não conhece é por onde passa 80% do Rio de Janeiro que viaja no carnaval)

Primeiro diálogo da viagem:

- Viu meu e-mail?
- Não.
- Como não? (olha o cheiro da crise dos 7 anos...)
- Não vi, tive que almoçar com uma autora e não liguei o computador na volta.
- Não consegui fazer a transferência para pagar a pousada, pedi pra você fazer no Real.
- O caixa eletrônico não faz. Vamos pagar com o cartão quando chegarmos lá.
- Tá. Você está com o MasterCard, né?
- Não, está em casa. (olha o cheiro ficando mais intenso...)
- Mas eu falei que eles só aceitam MasterCard!
- Eu sei, mas não peguei quando saí!
- E agora?
- Não sei, liga pra pousada e pergunta o que dá pra fazer.
- Não trouxe o telefone de lá.
- E o endereço?
- Quer que eu lembre de tudo?! (pronto, a catinga havia tomado conta do ambiente)

Tivemos de voltar em casa. Pegamos cartão, endereço, telefone e aí sim seguimos viagem. Iniciamos 15:20 da tarde, passando pela frente do Maracanã. Nossa meta, pelos cálculos e indicações de um amigo de Vitória que conhece a estrada, era chegar em Vitória entre 9 e meia e 10 e meia da noite. Dormiríamos e seguiríamos no dia seguinte pela manhã até Caravelas.

Ponte tranquila, primeiro trecho tranquilo, o sol brilhava, a música tocava no rádio, tudo era engraçado... até o primeiro quebra-mola na entrada de Campos. A BR101 que contorna e cruza parte da cidade estava literalmente parada. Foram quase 2 horas e meia até que deixássemos a cidade (um trecho feito na volta em 10 minutos). Detalhe, eram quase 10 horas da noite e estávamos na metade do caminho até Vitória (que, por sua vez, era metade do caminho até Caravelas).

Campos superada, seguimos adiante, era noite, já não estávamos tão risonhos e a música era trocada constantemente. Onze e meia, olhos cansados, bunda quadrada, estrada ruim, resolvemos encostar para procurar um hotel. Em Iconha fomos aconselhados a voltar 8 km e ficarmos em um hotelzinho na beira da estrada, pois Vitória ainda estava um pouquinho distante, cerca de uma hora e meia.

Fizemos isso, avistamos o tal do hotelzinho, com um boteco ao lado. O hotel parecia estar fechado, estava todo apagado. Resolvi descer para perguntar. Quando cheguei no balcão, e aguardava a moça reunir boa vontade para me atender, notei que o amor estava no ar. Casais apaixonados se beijavam ardentemente, enfim, o clima era de pegação. Perguntei do hotel e a moça respondeu: “Tem que tocar a campainha para pedir a chave.”

Neste momento eu estava com 3 neurônios acordados, mas um eles estava muito cansado e havia ficado no carro. Os dois que me acompanharam estavam mais atentos, um disse: “Olha, tem coca-cola gelada!” Já o outro teve uma visão macro da situação: “O imbecil, te manda que isso aqui é um puteiro!”

Embora quisesse muito a coca-cola gelada, entrei no carro e sugeri que seguíssemos até Vitória.

Aportamos pouco antes de entrar em Vitória por volta de 1 e 15 da manhã, no motel que tinha mais luzes (era o único que meu olhos conseguiam enxergar àquela altura).

Comemos e dormimos, quase que simultaneamente.

Acordamos às 9 horas e seguimos por dentro de Vitória, desbravando a terra dos Rueff Camisasca. Tomamos café e deixamos a cidade rumo ao objetivo final – Caravelas.

Pouco tempo depois, entre Serra e Fundão (sim, até no carnaval a Tatiana precisa passar pelo Fundão, isso se chama dedicação) o trânsito parou. Foram mais 2 horas de engarrafamento ao longo de um trecho ridiculamente pequeno. Nesse momento, uma prática que me incomoda bastante passou a me irritar, a ultrapassagem pelo acostamento. O que essas pessoas têm na cabeça, sério? O que passa pelo cérebro de uma criatura assim? Porque pra mim é matemático, se engarrafou é porque em um determinado trecho há mais carro do que o espaço permite deixar fluir. Logo, se você vai pelo acostamento e acrescenta mais carros ainda, o trânsito ficará ainda mais lento. Dããã. E o pior, essas pessoas devem pensar assim: “Foda-se, não sou eu que vou estar lá atrás mesmo”. Mas elas não percebem o erro que cometem. Além de colocarem em risco a vida de um terceiro e da sua própria família, elas dão um péssimo exemplo, na grande maioria das vezes, para os filhos que estão no carro. O recado é basicamente o seguinte, filho, contanto que você se dê bem, pode deixar de lado as leis e regras estipuladas pela sociedade para um convívio harmonioso e pacífico. E eu tenho certeza de que esses mesmos motoristas de acostamento ficam “indignados” ao verem nos jornais políticos escondendo dinheiro, etc, etc, etc. O que eles não pensam é que provavelmente os exemplos que essas pessoas tiveram são os mesmo que eles estão dando para os filhos.

Passamos Fundão, graças a Deus! A partir daí a viagem seguiu tranqüila, apesar dos muitos caminhões e da pista em mão dupla durante todo o caminho. Aliás, em decorrência disso, desenvolvemos um novo tipo de ultrapassagem – ultrapassagem por constrangimento. É mais ou menos assim, você fica tempo suficiente atrás de um carro, ônibus ou caminhão sem conseguir ultrapassá-lo. O resultado é que a pessoa fica tão constrangida que para no primeiro posto, encosta no acostamento ou se joga da estrada para deixar você passar.

No trecho final da viagem, para evitar uma estrada de chão de 60 km, optamos por dar uma voltinha a mais até Caravela, passando por Teixeira de Freitas e Alcobaça. Acrescentamos mais uns 80 km além do que pensamos em percorrer.

Chegamos ao destino final por volta das 17:30. O prêmio após a primeira metade da Odisseia foi um visual lindo nos fundos do hotel, um pôr do sol avermelhado, uma praia vazia e uma água quentinha!!!

A ESTADIA
As imagens falam por si. Sol, tranquilidade, boa companhia, praia, boa comida, belo visual...












A VOLTA

Optamos por sair na quarta e cinzas cedo para evitarmos o trânsito de volta para Vitória. Nossa ideia era novamente chagarmos até Vitória e seguirmos pela Rodovia do Sol, para conhecermos o litoral.

Fomos muito bem até Vitória, chegamos no início da tarde. Conhecemos um pedaço da cidade, passamos pela terceira ponte e entramos em Vila Velha. Aportamos em algumas praias para fotos e seguimos pela tal Rodovia do Sol até Guarapari. Passeamos por uma das praias, mais fotos e decidimos que aproveitaríamos o finzinho de dia para tentarmos chegar até Cachoeiro de Itapemirim, terra do Rei, e ganharmos alguns km a menos no dia seguinte.

Chegamos em Cachoeiro às 20h, após um breve erro no percurso. Comemos e dormimos. Acho que sabíamos o que nos aguardava no dia seguinte.

Saímos de Cachoeiro às 9h, às 14h estávamos no trevo de Rio Bonito, quando tudo parou. Sério, parou! Um pouco depois, cheios de fome, resolvemos, assim como outras 3.572 pessoas, comer alguma coisa no Kiosque do Alemão. Maldita hora, vim conversando com aquele maldito pão com lingüiça até a Ponte Rio-Niterói. A partir do Kiosque foram cerca de 3 horas para andar 9 km. Em determinado momento uma moça que estava no carro ao lado, saiu para fumar e foi caminhando. Passamos por ela minutos depois, sentada na divisória das pistas esperando o carro em que ela estava passar.

Manilha parada, Ponte parada, Praça da Bandeira 18:30h e, finalmente, lar doce lar!

Acho que iniciamos bem a crise dos 7 anos.

Se você me perguntar se eu faria tudo de novo, passando pelos mesmos perrengues, eu diria que para fazer o que eu fiz e ver o que eu vi... sem dúvida!

Obs. Notaram que não mencionei Abrolhos? Pois é, merece um post especial.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Adeus

Confesso que quando você chegou eu não esperava muito de ti, as preocupações eram muitas, as dúvidas eram grandes, havia incerteza, uma certa ameaça pairava no ar, não me sentia confiante naquele momento.

Algumas expectativas se concretizaram, alguns desafios foram vencidos, algumas batalhas continuam sendo travadas; mas o fato é que nosso relacionamento está chegando ao fim. Que não me ouçam, estou feliz por isso.

Nem tudo foi ruim, óbvio. Mas estou um tanto saturado da tua presença, preciso não ter mais você por perto. Tivemos bons momentos, conquistas, alegrias, sem contar o quanto você me ajudou a amadurecer, tanto pessoal quanto profissionalmente. Disso eu irei me lembrar o resto da vida.

Mas não podemos seguir juntos por mais tempo, para mim é impossível; e eu também não gostaria que continuássemos juntos mesmo que fosse. Desculpe, estou sendo sincero para que você entenda que é importante para mim seguir em frente, vivenciar outros relacionamentos como este, muitos se possível for!

Não me leve a mal, terei você no meu pensamento sempre, contarei nossas histórias àqueles que estiverem dispostos a ouvir; e àqueles que não tiverem, direi que valeu à pena.

Não quero parecer sentimental demais, por isso opto por encerrar por aqui.

Obrigado por tudo!

Adeus 2009!!!


sábado, 19 de dezembro de 2009

Flash Mob


Acredito que nem todos saibam o que é Flash Mob. Eu aprendi recentemente, desculpem o atraso!

Wikipedia: Flash Mobs são aglomerações instantâneas de pessoas em um local público para realizar determinada ação inusitada previamente combinada, estas se dispersando tão rapidamente quanto se reuniram. A expressão geralmente se aplica a reuniões organizadas através de e-mails ou meios de comunicação social.

Achei (em alguns casos) a mobilização de uma criatividade e brilhantismo ímpares. É bem verdade que ao navegar pelo Youtube você vê todos os tipos possíveis dessa mobilização, mas poucos saem da mesmice.

Estava vendo um programa da Oprah (sem julgamentos, por favor, estou de férias e tratava-se de uma pesquisa antropológica particular) e em um evento de abertura de temporada, ao vivo, no meio de Chicago, durante uma apresentação do Black Eyed Peas, deparei-me com aquilo. Era como se houvesse uma contaminação que se disseminava e fazia com que todos (era muita gente!) participassem daquela apresentação. Fiquei espantado (assim como ela, que não sabia e nem esperava por aquilo) com a mobilização e a organização, tanto de quem orquestrou quanto de quem participou.

Coloquei o link abaixo para que possam dar uma olhada.


Oprah:

Vídeo retirado em razão da determinação do Ecad de cobrar para reprodução de vídeos do Youtube.



Quando fui rever na internet, acabei passeando por vários outros, e um me encantou em especial. O lugar, as pessoas, a incompreensão, o encantamento, a sensibilidade... Para minha mãe (que me apresentou o filme) e para quem gosta da Noviça Rebelde...


Noviça Rebelde:

Vídeo retirado em razão da determinação do Ecad de cobrar para reprodução de vídeos do Youtube.


Oprah Flash Mob Dance
Wikipédia: No dia 10 de setembro o grupo Black Eyed Peas quebrou o recorde de maior flash mob da história, ao reunir cerca de 21 mil fãs na Avenida Michigan, em Chicago, nos EUA para comemorar a passagem da 24ª temporada do programa de Oprah Winfrey na TV. O grupo preparou uma surpresinha para ela ao tocar o grande hit I Gotta Feeling com uma coreografia inacreditável envolvendo toda essa multidão.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Três cores que traduzem tradição


Primeiramente gostaria de deixar alguns pontos claros.


Sim, gostaria de ter sido campeão.
Não, não gostei de perder outra vez um título para LDU.

Isto posto, escrevo.

Definitivamente não sei torcer.
Os que me conhecem, ou que acompanham o blog, sabem que sou um desportista frustrado. Trocaria, sem pestanejar, o mundo dos livros, das traduções, das revisões, “da Letras” (como diria meu vizinho) por uma vaga de terceiro goleiro ou lateral esquerdo reserva em algum clube, de wide-receiver ou kicker em um time de futebol americano ou de armador em uma equipe de basquete. Adoro esporte, adoro competir, e, de uns anos para cá isso ficou canalizado para as peladas de fim de semana ou para o Playstation. Julgamento a parte, cada um é o atleta que merece.
Por isso, quando acompanho e torço pelo meu time em um campeonato, ou pela seleção, torço por inteiro, suo, vibro, grito, incentivo, xingo, pulo, bato palma, chuto, cabeceio, dou soco, converso, instruo, reclamo, defendo, ataco, só não dou entrevista no fim do jogo (ou melhor, não em rede nacional, mas ai de quem quiser falar comigo na saída do campo de jogo). Mas, assim como quem joga, depois daqueles vinte minutos pós-jogo (após o banho tomado e a cabeça mais fria) eu não consigo sustentar qualquer sentimento negativo. Seja a desilusão pela derrota, seja a raiva verdadeira de um ou outro jogador, seja o inconformismo por essa ou aquela situação, enfim... Já os sentimentos positivos passam a me tocar com muito mais intensidade.

Pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer.


Brinco e sacaneio amigos torcedores de times adversários, faz parte. É mais pela sacanagem em si do que por um sentimento verdadeiro de querer ver o outro na merda (perdoem meu francês). Hoje, estou feliz por ver o flamengo (praticamente) garantir a taça do Brasileirão. Calma, vou explicar. Obviamente queria que fosse o Fluminense, não há discussão quanto a isso. Mas, não sendo o Flu, fico feliz em ver um carioca na frente. Faz tempo que os grandes títulos ficam com as equipes de São Paulo e do Sul, e o que nos resta é fazer uma festinha por uns títulos estaduais ou um ou outro título de mais projeção. A falta de estrutura e de profissionalismo dos clubes do Rio nos impede de ver mais clubes cariocas brigando pela ponta (de cima) da tabela. Creio, ou pelo menos quero crer, que será bom para a valorização do futebol do estado.

Pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer.


Até 12 rodadas atrás, torcia para o Flu cair mesmo. Pois vi que o que estava acontecendo era um filme repetido de 96, 97 e 98. E me lembro de como conseguimos mudar a mentalidade dos dirigentes, do time e da torcida quando fomos disputar a série C. Achei que seria uma saída para o momento do clube. O que eu não esperava era que a Torcida adquirisse uma consciência torcedorística (não, não existe, mas se Machado pode eu também posso) óbvia mas quase impossível de se estabelecer – a de torcer pelo time, e não de torcer para o time quando este ganha.

Mas, pelo que percebo, de uma forma geral pelo menos, isso não é torcer... pelo menos não era até agora!

Quanto a mim, encantam-me a festa, a expectativa, o canto, a luta, o clímax, o anticlímax, a entrega, os heróis, a superação, os guerreiros, a visão de jogo, a jogada, o gol, a epopéia... o resultado pode me deixar triste ou feliz, por mais ou menos vinte minutos. Já os pontos mencionados permanecem comigo.

Quanto ao time, o que dizer... Neste caso, é como uma mãe conversando com outra, seja qual for o teor da conversa, cada uma vai crer sempre que o seu filho é o mais bonito, o mais inteligente, o mais desenvolvido, o mais cheiroso, etc. Então, como já disse e repito que não acredito em imparcialidade, ressalto apenas que nosso clube nunca se propôs a ser o maior, assim como nossa torcida. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Mas essa torcida certamente é a melhor. Por favor, sem pedras, vou explicar cientificamente.

Qual clube do Brasil foi rebaixado duas vezes seguidas para a série B e logo em seguida para a série C, está há 26 anos sem um título Brasileiro da série A, perde uma Copa do Brasil em casa para um time de segunda, perde uma Libertadores em casa para um time do Equador e no ano seguinte perde para esse mesmo time a Copa Sul-americana novamente em casa? Vou facilitar a pesquisa, só tem um... o Fluminense.

Outra pergunta. Com o histórico acima, você diria que a torcida desse time colocou mais de 20 mil pagantes em média no Maracanã na disputa da série C; ou que a torcida desse time se renova e reforça a cada obstáculo, como a despedida da Copa João Havelange em 2000 com um chute quase do meio campo; ou que essa torcida conseguiria se recompor após se entregar a pseudocraques, jogadores em fim de carreira e ídolos rivais (como Felipe, Edmundo e Romário) que não souberam honrar as três cores que traduzem tradição; ou que essa torcida se reinventaria após o pó-de-arroz e abênção João de Deus, inovando com mosaicos, balões, fogos e, por fim, um corredor humano de 3 km para receber o ônibus do time até o estádio em que este mesmo time já começaria o jogo perdendo de 5 a 1? Vou facilitar novamente, SIM!

Portanto, concluindo cientificamente, em condições normais e temperatura e pressão (como diriam os pesquisadores), nenhum outro time tem esse histórico. Não tendo esse histórico adverso, não pode afirmar que sua torcida suportaria tais adversidades. Pode ser que sim, pode ser que não, mas como não passou não tem como provar. Eu tenho! Presenciei tudo isso e afirmo, continuamos cada vez mais tricolores.

Como disse Nelson Rodrigues:

“Uma torcida não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte da paixão.”

domingo, 15 de novembro de 2009

Expectativa e realidade

Em breve terei minhas merecidas férias. Por conta disso, estou vivenciando uma enorme ansiedade – a expectativa do ócio.

Essa expectativa, de certa maneira, está me fazendo aproveitar o período das férias antes mesmo de ele chegar. Ou seja, estou potencializando meus dias livres quando, no meu aguardar, eu me pego planejando e visualizando minhas horas livres. É possível até experienciar algumas das sensações que terei quando e se eu fizer uma determinada coisa quando eu estiver de férias. O que é meio maluco, porque, de fato, ainda estou envolvido na loucura diária dessa rotina que nos aprisiona.

Fiquei pensando, então, que, embora eu tenha 1.538 planos para as férias, eu na realidade realizarei, com alguma sorte, uns 3. Não me entenda errado, eu ficarei feliz da vida com esses 3. Mas é que eu de alguma forma vivenciei em parte todos os outros 1.535 dentro da minha cabeça antes e durante meu período de descanso. O que me trouxe algum prazer momentâneo.

Não sei se estou fazendo algum sentido, mas o que estou querendo colocar é que é possível aproveitarmos algumas experiências antes mesmo de elas acontecerem. Em alguns casos talvez seja possível experimentá-las sem que elas sequer aconteçam.

A pergunta, então, é a seguinte: Que prazer é capaz de nos entreter, marcar e preencher, o da expectativa ou o da realidade?

Não quero, de forma alguma, tirar a importância da experiência vivida. Mas queria chamar a atenção para o que precede esse momento de fato vivido. Pegue os filmes, por exemplo, no “trailer” você não precisa ver o que não lhe agrada daquele “filme”, você fica com as melhores partes compiladas de forma que despertem curiosidade e prazer. Quantas vezes você já assistiu a uma porcaria de filme porque se encantou pelo trailer?

E em nossas vidas mesmo, pare um instante para pensar em alguma experiência muito bacana e marcante que você teve. Identificou? Pois então, é grande a chance (se você puxar pela memória) de que a expectativa dessa experiência tenha alimentado seu espírito bem antes da própria experiência, e talvez por mais tempo e com maior intensidade.

Por exemplo, uma festa de aniversário que você tenha feito e que tenha sido ótima. A festa em si pode ter sido ótima, a presença dos amigos, a interação, comida, bebida, as brincadeiras, as boas risadas, enfim, um belo momento que você vai se lembrar durante muito tempo e depois se recordará quando vir as fotos (caso as tenha tirado) – mas que durou, digamos 5 horas mais ou menos. Agora pense no tempo que você levou montando esse momento na sua cabeça e planejando tudo. O tempo que você conversou com essas pessoas para convidá-las, os e-mails trocados, as compras, o pensar nos detalhes, a tentativa de equacionar tudo para que o resultado fosse o melhor, todos os momentos que você gastou pensando ou fazendo algo de fato em prol da realização da festa – certamente foram mais que 5 horas e na sua cabeça certamente diversas coisas interessantes se passaram, mas que não necessariamente aconteceram durante a festa propriamente dita. Ou seja, você curtiu muito essa festa antes mesmo de ela acontecer, mas acabamos por nos esquecer disso, e o que fica é a festa “real”.

Existem inúmeros exemplos como este: a espera do Papai Noel e da noite de Natal ou a entrega do presente; aquela viagem no feriado ou todo o planejamento e a ansiedade que você ficou na semana ou nos dias que a precederam; um show que você queria muito ir ou o nervosismo dos dias anteriores, quando você conseguiu comprar o ingresso e ficou se imaginando perto do palco, recebendo aquela palheta com a qual seu ídolo tocou naquele dia; enfim...

Em um mundo em que há muito pouco com o que se divertir sem ter que pagar nada, acho que a expectativa pode ser a saída para uma melhor qualidade de vida, qualidade de relacionamento, qualidade no local de trabalho, etc. Sugiro, então que você a exercite. Experimente trabalhar essa expectativa em uma área que não esteja “tão boa assim” na sua vida. E perceba se essa energia (que será exclusivamente positiva) trará alguma melhora para essa área.

O que eu posso afirmar é que eu já comecei o exercício e, antes mesmo de entrar de férias, tenho ido à praia todos os dias, tenho dormido até mais tarde, tenho visto filmes até de madrugada e tenho feito o que posso para fazer toda e qualquer coisa na hora mais improvável possível, apenas porque na minha expectativa... eu posso.

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sentidos

Outro dia vi em um programa na televisão, não me lembro qual (se alguém disser Saia Justa eu nego), alguém falando do olfato. A Mônica, digo, pessoa dizia algo sobre o olfato ser a “verdadeira memória”.

Fiquei pensando naquilo, nos momentos em que diferentes aromas nos levam a diferentes lugares, nos transportam para momentos específicos ou nos trazem a presença de pessoas que há muito não vemos. Achei pertinente.

Então, logo em seguida fiquei tentando lembrar do cheiro mais antigo que tenho recordação. Confesso que chegar nele foi difícil, mas assim que me lembrei dele tive certeza de que era a minha memória olfativa mais antiga. Papai e mamãe que me perdoem, mas o cheiro da Vó Neide levou essa.

Ao tentar me recordar dos cheiros, invariavelmente me vinham à mente sons, gostos, imagens, toques e diversas outras memórias. Então percebi que estava sendo injusto com os outros sentidos. Eu havia adotado o olfato como principal e negligenciado os outros que, particularmente, considero igualmente importantes.

Como já era tarde, minha esposa estava viajando e o sono havia saído e me deixado na mão, continuei com o exercício. E acho que consegui identificar em cada sentido, a mais antiga lembrança.

As minhas lembranças eu partilho abaixo. E você, já parou para tentar identificar essas lembranças? Posso dizer, por experiência própria, que a viagem vale à pena.

Se também quiserem compartilhar, sintam-se à vontade.



Olfato: cheiro da minha avó.

Paladar: torta de banana da minha mãe (nem é tão antiga assim... a lembrança).

Tato: colo da minha avó (a mesma do cheiro) e a mão da minha mãe (me dou ao direito de escolher duas nesse caso porque confesso que não consegui identificar a memória mais antiga).

Audição: o assovio do meu pai, que tinha um alcance absurdo e era o sinal para voltar para casa porque estava na hora de tomar banho.

Visão: um camping com muita gente e eu a caminhar bem... digamos... “naturista”.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Resposta a um novo velho conhecido

Dourados, 19 de outubro de 1992




Putz Rodrigo, achei que você nunca mais ia mandar notícias! Mas que bom!


Estava mesmo pensando em você nas últimas semanas. Fiquei curioso pra saber como é que você estava, se estava tudo bem.


Pelo visto sim, né!


Apesar de algumas notícias, fiquei feliz de você ter escrito.


Acho que entendi o que você escreveu sobre o pessoal aqui. Mas tá foda! Pô, e você ainda me manda ter paciência e compreensão e tal, tá de sacanagem né? Se bem que, se você está aí e falando isso, deve saber mais que eu. Vou tentar e depois você me diz se deu certo.


Você tá falando sério sobre mais duas irmãs? Vão ser 3 irmãs então? Mas vem cá, de onde vão sair essas duas? E que história é essa de “papai cinza”, não entendi porra nenhuma. Isso tá muito esquisito.


Cara, realmente escolher uma profissão está difícil. Eu adoro praticar esportes, mas não sei se vou ganhar dinheiro com educação física. E tentar alguma peneira em algum lugar também não vai dar, porque eu teria de parar de estudar e meus pais me matam. Pra ir pro treino já tá difícil, imagina se eu disser que quero ir tentar uma peneira. Confesso que desanimei quando você falou das aspirações desportistas. Mas vou tentar aproveitar os próximos anos como você falou, de repente mudo essa história.


Pô, quero ver se penso em alguma profissão que use o inglês. Você até que me animou com o lance do intercâmbio, estava pensando mesmo nisso. Acho que seria uma ótima oportunidade de aprender, conhecer uma cultura diferente, sair um pouco de casa. Só fico com o pé atrás porque sei que é uma grana e não sei se o pai teria como pagar. Na verdade nem sei se eles me deixariam ir. Mas vou pesquisar um pouco mais pra ver direitinho como e quanto é. Vai que dá.


Você não me disse o que cursou, só me falou que a faculdade não é isso tudo e depois falou “livro de medicina”. Não entendi. Aliás, não só não entendi, mas também fiquei preocupado. E por que você está rindo disso? Pô fala aí. Ih cacete, por acaso eu fiz Farmácia igual o pai? Porra, eu só me ferro em química, biologia. Aí, sacanagem você dar a notícia pela metade.


Agora, você tá falando sério que eu casei com a Tati? Hahaha, isso eu duvido. A gente se conheceu esse ano, já ficamos juntos, mas casar? Tô começando a duvidar das suas outras notícias também. Não que eu não adore ela e não pense nisso, ela é linda, inteligente, um “pouquinho” brava, mas é muita areia pro meu caminhão. Além do mais, você passou por aqui e sabe que ela é meio difícil. Qualquer coisa é motivo pra eu ganhar um pé na bunda. “Hoje tá sol, Rodrigo quero terminar.” “Hoje tá chovendo, Rodrigo quero terminar.” “Ai, o tempo tá esquisito, não sei se chove ou se faz sol... ah, Rodrigo, quero terminar.” Além disso, só temos 15 anos, sei lá o que vai acontecer no futuro. Só fiquei com a pulga atrás da orelha porque você deu muitos detalhes. Será?


Agora, essas notícias de jornal que você deu, do Collor, do Lula, do Flu, da seleção, da Legião, tá falando sério mesmo, ou é pra eu adivinhar o que é verdade e o que é mentira. Deve ser isso, vamos lá:


- Collor fora da presidência: Verdade. Isso eu tenho quase certeza, amanhã nós vamos sair daqui da escola com a cara pintada e vamos lá pra Marcelino protestar. Vi no jornal que o Brasil todo quer que o cara saia.


- Lula presidente: Mentira. Taí, não sei. Se tivesse que apostar diria que não, acho que quem manda mesmo não quer esse cara lá no topo.


- Flu na terceira divisão: Mentira. Hahaha, boa. Até parece que o clube dos 13 ia deixar.


- Campeões da Copa 94 e 02: Verdade. Disso eu nunca duvido.


- Show da Legião: Mentira. Claro que vou ver. Ainda mais se for pro Rio fazer faculdade, esses caras devem fazer show lá o tempo todo.


E aí, quantas eu acertei? Depois me conta.


Como você disse no fim da sua carta, tudo depende de escolhas. Espero poder escolher bem desde agora pra poder chegar aí com a mesma satisfação que você está me escreveu. Não se preocupe, já estou ciente da nossa “bússola”.


Preciso sair agora, vou pro Indaiá (o clube, lembra?).


Sempre que quiser, escreva.



Até mais,


Alva






 



domingo, 4 de outubro de 2009

Espírito Olímpico

A escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 despertou dentro de mim uma ambiguidade de sentimentos, gerada pelo cidadão carioca e pelo desportista profissional frustrado.




Os dois haviam entrado juntos em uma loja na hora do almoço durante o anúncio do resultado. Desde de manhã, ambos discutiam sobre a necessidade de acompanhar as apresentações e a votação. Conforme a manhã foi passando o desportista tomou a iniciativa e, à revelia do cidadão, acompanhou as informações em tempo real pelos portais de notícia.


Àquela altura, minutos antes do anúncio, estavam os dois ali, diante de uma televisão que recebia a atenção de todos que estavam por perto. Nesse momento, o cidadão, que verificava os preços dos artigos que levaria para ir direto ao caixa e aproveitar o desvio de atenção de todos, foi puxado pelo desportista para perto da televisão.


Indiferente, o cidadão acompanhou a leitura do envelope que trazia as inscrições “Rio de Janeiro” e testemunhou uma emoção contida por parte do desportista, entregue apenas pelo sorriso no rosto e o leve arrepio nos pelos de seus braços. “Quanta bobagem”, ele pensou.


Já o desportista, após o anúncio, acompanhou o cidadão na finalização das compras sem proferir uma só palavra, sua cabeça estava em outro lugar. Se ele tivesse seguido a carreira profissional e tivesse experienciado algum sucesso a ponto de ter o privilégio de representar as cores do seu país na maior festa do esporte mundial, em 2016 ele estaria com 39 anos e certamente não participaria como atleta. Mas, ainda assim, ele descobriria alguma maneira de fazer parte dessa festa e contribuir de alguma forma. Ele ficou imaginando as cores nas ruas, nos carros, nas casas, nos prédios, o envolvimento das pessoas e toda a atmosfera que irá tomar conta da cidade. Ficou pensando que a chance dos nossos atletas será sempre maior, pois sabemos o que uma torcida inflamada é capaz de conseguir – um centímetro a mais, um segundo a mais, uma cesta a mais, um gol a mais, um bloqueio a mais, uma braçada mais forte, etc...


O cidadão, sem imaginar o que se passava pela cabeça do desportista naquele momento, tinha apenas uma convicção, por melhor que fosse essa olimpíada para alguns, ela seria muito melhor para quem sequer entra em uma pista, quadra, campo ou piscina. Não temos um histórico de organização e nem de sabermos aproveitar (coletiva e socialmente) os benefícios que uma situação como essa pode proporcionar. Se soubéssemos, o carnaval carioca já teria resolvido os problemas de muitas comunidades da cidade. Mas pergunte para onde vai o dinheiro de uma festa como essa que é confeccionada e realizada com o suor e dedicação de quase um ano de muitos moradores dessas comunidades. Pergunte se alguma das baianas que trabalham no carnaval há mais de vinte anos já deixou o barraco que ela morava em 1989 e comprou um apartamento de dois quartos que seja para acomodar sua família.


O legado para uma cidade que não sabe aproveitar positivamente uma oportunidade como as olimpíadas pode ser desastroso. A vontade política que se viu nos últimos meses certamente não será a mesma quando o leite da vaca olímpica secar. E esta ficará largada em um canto qualquer sem que o governo federal e nem o estadual façam qualquer esforço para lhe transferir para um pasto digno do leite que ela ora ofertou. Já vimos isso acontecer – o Autódromo Nelson Piquet, a Cidade da Música, o Parque Aquático Maria Lenk não me deixam mentir. Sem mencionar que a Lei de Gérson já começou a vigorar a partir do momento do anúncio. Será uma corrida de 7 anos para ver quem conseguirá levar mais “vantagem em tudo, certo”? Infelizmente sim.


Por essas e outras razões, o cidadão não conseguia partilhar do sentimento do desportista. E o desportista, por outro lado, não conseguia se desconectar daquela sensação.


Pelo que soube, os dois não trocaram uma só palavra desde então.

 
 
Perfeição - Legião Urbana
 
Vamos celebrar

A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Tanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...