domingo, 13 de julho de 2014

Reminiscências de uma Copa



Quando meu amigo Ben Kohn, parceiro no Festival de Cinema do Rio, entrou em contato para me fazer uma proposta de trabalho em setembro do ano passado eu jamais imaginava que a proposta fosse participar de uma Copa do Mundo – e mais, uma Copa do Mundo no Brasil! Fiquei lisonjeado com a lembrança e ao mesmo tempo ansioso para saber o que faria e onde estaria.


Após algumas conversas entendi que a empresa dele (hoje na Inglaterra) contrataria um grupo de brasileiros para trabalhar como facilitadores (fixer) para as diversas equipes da BBC de Londres que viriam fazer a cobertura da Copa. A instantânea felicidade causada pela proposta foi quase que imediatamente contida pela incerteza da minha disponibilidade para todo o período e certeza de que a distância dos meus tesouros durante tanto tempo poderia ser um obstáculo grande a ser superado.


Cálculos e negociações feitas, faltava uma entrevista que seria feita com parte dos chefes da rede de tevê em dezembro de 2013, no Rio. Aqui cabe um aparte. Durante todo o momento e em todas as conversas eu tentava buscar ficar baseado no Rio, por algumas razões óbvias e outras não tão louváveis. Morei no Rio, conheço a cidade, seus caminhos, lugares, atalhos, então se era para atuar como “facilitador” para alguma equipe, que fosse num lugar onde eu realmente pudesse fazer mais diferença. Além disso, o fato de poder rever amigos, vivenciar a cidade, ter a facilidade de poder trazer as meninas em algum momento para matar a saudade e a possibilidade de estar numa final de Copa do Mundo no meu país também contavam muito para essa tentativa de ficar baseado no Rio.


Viajamos para o Rio em dezembro. Após o jantar do grupo com os responsáveis pela contratação, Ben sentenciou: “Você tá dentro!”


Seis meses de ansiedade e apreensão pelo que me aguardava anteciparam a viagem no dia 7/6, sábado, meu primeiro dia de férias. Meu trabalho começou ao aterrissar em solo carioca. Ainda no aeroporto conheci Felipe, motorista da van com quem trabalhei nos primeiros 15 dias. De lá partimos para o Royal Tulip, em São Conrado, para conhecer Stephen Lyle, produtor da equipe que faria a cobertura da seleção inglesa durante a Copa. Havia descoberto o trabalho. Seria o facilitador da equipe que estaria em todos os treinos, jogos e momentos da seleção durante toda a Copa. Ok! Naquele momento era tudo que eu queria ouvir. Vivenciaria e acompanharia uma das grandes seleções do torneio enquanto faria o meu trabalho.



Além de Steve, faziam parte da equipe Andy (produtor), Ian (câmera), Scott (editor), Rob (engenheiro) e Gabby (repórter). Tive muita sorte de cair no grupo que caí, por isso gostaria de fazer outro aparte e falar um pouco de cada um, porque para mim essa troca de experiências e interações são o que carregamos como enriquecimento. Vivemos o momento, mas crescemos com as pessoas.





Stephen é casado e tem três filhas. Ele é o responsável por essa equipe. É um cara muito gentil, observador e tenta a todo tempo não interferir nos processos de cada membro da equipe. Como ele mesmo diz, sua função é garantir o melhor ambiente, estrutura e condição possível para que cada um faça o que sabe fazer da melhor maneira, rendendo o máximo possível. Longas horas na van, algumas idas ao shopping e uns dois jantares permitiram bons papos, troca de impressões, reflexões e uma afinidade mútua, posso dizer. Certamente frequentaria minha casa.


Andy também é casado e pai de um menino. O russo (como Felipe o identificava) é o responsável pela criação/idealização das matérias que eles fariam. Por causa dele fiquei conhecido na secretaria de cultura de Manaus, no Teatro Amazonas, na Pedra da Gávea, na rampa de saltos de asa delta, no quiosque em frente ao hotel, no Clube de Regatas Flamengo (experiência que precisarei de muito tempo para esquecer) e em alguns outros locais. Em uns positivamente, em outros nem tanto. É uma enciclopédia de futebol, um apaixonado pelo esporte capaz de comprar uma camisa retro do Remo e ficar feliz. Boas conversas, boas histórias de quem trabalha em sua quarta Copa.


Ian também é casado e pai de um casal. Não é da BBC, já foi e hoje é freelancer. Continua com a BBC como sua principal cliente. Há uns anos a BBC para reduzir gastos desmanchou uma parte do departamento técnico e ele foi nessa onda. Com o dinheiro da rescisão comprou seus próprios equipamentos e trabalha como freela hoje. Sujeito com humor mais ácido, mas ao mesmo tempo bastante compenetrado e exigente no que diz respeito ao trabalho. Carregava numa van pelo Rio cerca de 200 mil dólares em equipamento. Demorou um pouco para que ele ficasse tranquilo nos deslocamentos e quando a van precisava sair do seu raio de visão com algum equipamento dentro (quase o mesmo tempo que eu). Tudo culpa do Toby (assunto para mais adiante). Gente boa.


Scott é um solteiro convicto, tem a minha idade e corre e pedala alucinadamente por competições amadoras pela Europa. Estava se preparando há meses para uma prova de ciclismo extremamente longa em agosto, para a qual está com tudo pago e reservado. Chegou às 7h num voo noturno vindo da Inglaterra, deixou as malas no hotel, trocou de roupa, saiu e correu 14km para tirar a moleza da viagem. Este ficou que nem pinto no lixo, foi ao Barra Music, Lapa e pra vida noturna. Quando o pegávamos no hotel para irmos para o estúdio montado no outro hotel onde estava a seleção inglesa, ele estava sempre com cara de ontem. Semana passada durante um futebol de areia deles na praia quebrou um osso do pé e parecia uma criança quando descobre que Papai Noel não existe e que não receberá presente de Natal naquele ano. Está andando de muleta e com o pé engessado desde então. Ele também é freelancer e ficou muito preocupado quando sofreu a lesão com medo de ser despachado.


Rob é casado e um pouco mais velho que todos os outros. Foi com quem eu tive menos contato. Ele também é freela e foi embora após a eliminação da Inglaterra quando a equipe se desfez. Ele acabou voltando para trabalhar na final, desta vez contratado pela FIFA. É um sujeito que quase não bebe, ele come com farinha. Impressionante. Além disso, faz a melhor imitação do Al Pacino que já vi – hilário. E “fuck” é vírgula pra ele.


Gabby é casada e mãe de um casal de gêmeos. Para eles uma referência no cenário esportivo (seria uma mistura da parte esportiva da Glenda com a notoriedade da Patrícia Poeta). Foi ginasta e o pai é ex-jogador de futebol. Como não conhecia, não dei muita importância, mas pensei “a equipe me pareceu tão maneira, que pena que agora deve chegar uma repórter cocozinha e dar uma desequilibrada no clima”. Muito pelo contrário, a mulher se mostrou super parceira da equipe, fala pra caramba, carrega equipamento quando é preciso e acho que sacaneia mais do que qualquer outro. Além disso, conseguiu me rebatizar de “Rodriguez” num de seus posts no blog – uma odisseia atrás de uma chaleira elétrica, item de sobrevivência para qualquer inglês. E ganhou minha simpatia de vez quando conseguiu com um dos jogadores uma camisa oficial para me presentear pelo trabalho feito com a equipe.








O trabalho, enquanto estive com esta equipe, consistia em gerenciar o dia e as necessidades de cada um, garantir a segurança de todos, gerenciar os deslocamentos para que tudo fosse feito e não nos atrasássemos para nada. Então, de posse do cronograma de trabalho eu organizava com o Felipe (motorista da van que estava conosco naquele momento) os horários de chegada e saída de cada local. Em geral passávamos pelos hotéis cedo pegando a equipe e os equipamentos e chegávamos em torno de 10h30 na Escola de Educação Física do Exército, na Urca. Um longo processo de entrada, que incluía a mesma explicação para três equipes diferentes de guardas e uma revista de carro e bolsas, foi se tornando mais simples com o passar dos dias. No fim um “E aí parceiro!” acompanhado de um hang-loose já eram suficientes com os guardas e um “How are you on this fine morning, Mr. Short?” na revista nos davam acesso em menos de 3 minutos.







O centro de mídia na Urca foi todo personalizado para a seleção inglesa, desde um mega escudo da Inglaterra na parede externa a todas as paredes adesivadas com fotos dos atletas e informações e mensagem dos patrocinadores. Tinha uma sala para coletivas, duas salas de reunião, um salão enorme com duas mesas gigantes onde os jornalistas passavam a maior parte do tempo fazendo seu trabalho. Imagens e áudio do treino (o campo era aberto para alguma atividade ser filmada durante 15 minutos na maioria das vezes) e das coletivas (que aconteciam após o fim dos treinos) eram captadas e seguíamos de volta para o hotel onde ficavam o produtor e a repórter e dois outros quartos serviam de estúdio. Em um eram feitas as edições e no outro as entrevistas. Este hotel, Royal Tulip, foi o mesmo em que a seleção inglesa montou sua base durante o torneio. Vale destacar que apões tantas exigências da Federação Inglesa, ninguém no hotel estava com a menor vontade de ajudar qualquer um que fosse da terra da rainha. E essa má vontade às vezes atrapalhou bastante. A BBC, a ITV e a BBC rádio tinham três quartos um ao lado do outro que serviam de estúdio para as entrevistas. Essas entrevistas com os jogadores, técnico ou a comissão técnica aconteciam em horário determinado pela Federação Inglesa e eram rigorosamente seguidos. “Hoje vocês terão Steve Gerrard, 18h10, por dez minutos em cada estúdio.” E assim acontecia. O cara aparecia com o assessor às 18h09 e tinha de estar tudo pronto e engatilhado. Ele era entrevistado por 10 minutos, saía, entrava no outro estúdio, depois no outro, e exatamente meia hora depois pegava o rumo dele.




Retornávamos da Urca em torno de 14h. E o material feito ia para edição ao longo da tarde juntamente com o material da entrevista da noite anterior. O dia terminava em torno da 22h. Paralelamente a isso aconteciam filmagens esporádicas em outros pontos para composição de matérias que entrariam na programação antes dos jogos da Inglaterra e as tarefas/missões que surgiam a qualquer momento, como: “Rodrigo, sei que você não irá a Manaus conosco, mas seria possível gravarmos umas tomadas no Teatro Amazonas?”; ou “Rodrigo, seria possível irmos a um local com uma vista panorâmica deslumbrante da cidade?”; ou “Rodrigo, seria possível arranjar um grupo de samba para fazermos uma tomada na praia às 8h30 da manhã de amanhã, sábado?”; ou “Rodrigo, seria possível conseguir alguém que faz freestyle com a bola para fazer umas tomadas?”; entre outras mais simples porém não menos trabalhosas. Vale ressaltar que todas a missões dadas foram cumpridas e com louvor. Acompanhar como isso é feito, o trabalho que dá, o pouco tempo para fazer e o resultado que se tem é, sem dúvida, um aprendizado em vários sentidos.


Quando a Inglaterra viajava para jogar e essa equipe seguia junto para fazer a cobertura, eu era deslocado para acompanhar três técnicos para os jogos do Maracanã. Tínhamos de ir no dia anterior ao jogo para preparar o equipamento e testar tudo, e no dia do jogo. Com isso consegui estar presente e assistir aos jogos Argentina x Bósnia e Espanha x Chile. O clima do estádio é contagiante. Não tem como não se arrepiar. O protocolo, a entrada das equipes, o apito inicial, o gol, tudo é potencializado por se tratar de uma Copa, e aqui, no nosso país. Para um apaixonado por esporte e amante do futebol como eu, é uma experiência que só seria superada se eu estivesse lá dentro do campo, devidamente fardado. E assim como aconteceu na Urca, a frequência me permitiu conhecer algumas figuras no estádio que tornaram minha vida mais fácil e menos complicada em termos de acesso a áreas restritas e movimentação em dias de jogo.






Após a Inglaterra ser desclassificada, fui deslocado para o International Broadcasting Center (IBC) para me juntar à equipe de fixers e runners (os que estão conosco pelo menos são universitários que basicamente fazem o mesmo trabalho que os fixers, têm as mesmas responsabilidades e sofrem do mesmo jeito, mas têm outro nome e recebem menos) que já estavam lá. No IBC ficam as bases operacionais das emissoras de TV, rádio e internet do mundo todo que vieram cobrir o evento. Os galpões do Riocentro viraram umas caixas gigantes compostas de várias caixas menores, os escritórios das redes. O lugar é um melting pot (para usar a expressão que uma professora adorava). São várias línguas sendo faladas ao mesmo tempo, diferentes comportamentos e reações, enfim, para quem gosta de conhecer “o outro” é um prato cheio. Além da possibilidade iminente de você esbarrar com alguma figura conhecida, como Valderrama, Falcão, Asprila, Dunga, Luxemburgo, Stoichkov, Maradona, entre outros. Aliás, fica a dica, reconhecer algum desses no banheiro pode passar uma impressão estranha, então, se isso acontecer, faça cara de samambaia, aguarde vocês saírem e somente então faça o comentário que quiser.








Vários outros fixers e runners ficaram ou no estúdio montado em Copacabana (suspenso sobre a Atlântica com vista para o mar) que recebe os repórteres, comentaristas e ex-jogadores, ou estão espalhados pelas outras cidades-sede. Uns ficaram baseados nessas cidades como ponto de referência para as equipes que se deslocavam para cobrir os jogos e outros viajavam com essas equipes.


Mas o grupo com o qual tive mais contato é composto por dois fixers e dois runners. Também acho válido um parêntese aqui.


Nick é o inglês mais carioca que já vi. Intérprete e desenrolador-mor, é um cara que te conhece desde pequeno no momento em que se apresenta a você. Tem muita história, saca muito do que faz e se está do seu lado é o parceiro que você quer pra qualquer parada.


Antonella é uma jovem senhora italiana de cabelos brancos e fala mansa e carregada de sotaque a quem ninguém consegue dizer não. É a gentileza personificada. Contagia pela alegria em todo e qualquer momento, bastante ativa e disposta a ajudar. Seu abraço de bom dia levanta o astral de qualquer um.


Gabriel, ou Gabe, é o nordestino porreta que assumiu o Rio para si. Sabe onde tem, como chegar, qual o melhor. Alô Produção! E o cara surge com as melhores dicas. O sotaque inconfundível e a tolerância zero para alguns pedidos gringos me fazem rachar o bico em alguns momentos. Caiu nas graças de quem manda e, consequentemente, nas maiores furadas possíveis ao longo deste mês, desde resgatar fraldinha de gente grande a gerenciar, debaixo de chuva e de madrugada, 30 aborrecentes da comunidade para uma gravação da dança do passinho. 


Bernardo, ou Bernie, me fez restaurar a fé em uma geração que considero perdida (salvo uma ou duas exceções). O garoto é descolado, super-responsável, ligado, antenado, dedicado, tem consciência que o mundo não gira ao redor dele e ainda escreve bem. 






Ficaria muito feliz em reencontrar essa turma em outra oportunidade. Acho que nos demos bem e de certa forma nos completamos formando um grupo bem heterogêneo, alto-astral e bastante competente. 


No IBC as tarefas variam, mas não se tornam mais fáceis. Uma delas, o gerenciamento de vans e seus horários, torna-se algo bastante complicado quando você passa a conhecer o maravilhoso mundo dos motoristas. Esta é uma espécie que eu desconhecia até então. Mas que com o passar dos dias você aprende a lidar e a prever e/ou contornar os problemas que surgem decorrentes do modus operanti. Frases e expressões passam a ganhar novos contornos e despertar diversos tipos de sentimento em você. “Deu ruim” é algo que você definitivamente não quer ouvir de um motorista, dá calafrios. Não faz sentido algum, não te permite contra-argumentar sensatamente, ou seja, te coloca num beco sem saída em termos de conversação. “Tá tudo parado” também não é algo bom, mas não há muito o que fazer quanto a isso estando no Rio. “Tô aqui” quer dizer “Tô chegando”. “Tô chegando” quer dizer se prepara pra esperar pelo menos 30 minutos. Em geral, são pagos pelo dia mas agem como se estivessem fazendo um favor que você pediu; reclamam quando não são usados; reclamam quando são usados; falam pelos cotovelos; são folgados; e têm teorias sobre tudo e soluções para todos os problemas do mundo.


Há muita pesquisa a ser feita e ligações quando precisamos agendar um local de locação, de autorização de filmagem ou alguma outra maluquice que eles inventam. E tudo é para hoje ou amanhã. Nem sempre usam o que conseguimos, mas temos de cumprir a missão de qualquer maneira. Então parecemos malucos com dois telefones na mão o tempo todo, um da BBC que toca com alguma frequência e outro particular que usamos para fazer as pesquisas que salvam nossas vidas quando não estamos na frente de um computador com internet.


Ainda entre as atividades realizadas, emprestamos nossos talentos, fazendo voice over em alguma matéria deles ou narrando em português algum áudio que a Globo pediu rios de dinheiro para liberar. Nessas brincadeiras, fiz a voz de um jogador da Itália falando do Buffon, a do Ronaldo na coletiva falando sobre a lesão do Neymar e narrei um gol do Pelé na Copa de 1958. Em duas das matérias emprestei a figura. Em uma fui o goleiro do Flamengo (pior momento da carreira) numa reportagem sobre penalidades com Alan Shearer. Em outra, era um leitor qualquer de jornais brasileiros no dia seguinte à catástrofe do Mineiratzen.






Por falar em catástrofe, hoje, após um mês mergulhado nessa viagem, digo com propriedade, e não inocência, que escutar alguém falar em copa do mundo comprada chega a soar leviano para mim. Digo isso não baseado na fé que tenho pela humanidade, mas pela simples constatação de que por razões financeiras, se isso acontecesse, alguém já teria aberto o bico e mostrado numa reportagem na Globo, CNN, BBC ou no raio que o parta todo o processo. É muito dinheiro envolvido e investido, não por parte da FIFA, governo e país sede, mas por parte das outras 31 seleções e redes de TV, rádio, internet e inúmeros países que investem numa estrutura descomunal, deslocam milhares de funcionários e trabalham para levar para a casa das pessoas tudo o que puderem em termos de informação e imagens. Vou pegar um só exemplo. Não consigo ver a Inglaterra, com a estrutura que montou, juntamente com a sua imprensa especializada, ser conivente e aceitar ser eliminada na primeira fase de um torneio que estaria supostamente vendido um ou outro país para ganhar um outro em 2026. E pirando um pouco, supondo que a Inglaterra desse ok para isso, o que negociar com as outras 30 seleções??? Enfim, para mim parece desculpa de quem não sabe perder. Sabe aquele torcedor chato do time adversário que sempre coloca a culpa no juiz, bandeira, chuva, campo, enfim, terceiriza a derrota e não admite que perdeu nem por um decreto? Então, esse tipo de Joselito. 


Durante toda essa aventura, aprendi muito sobre os ingleses e pude tirar a poeira do meu “bad English” como eles se referem ao inglês americano. Aprendi novas expressões, palavras, alguns comportamentos-padrão, mas, sobretudo, conheci um outro bastante diferente em uns aspectos, mas muito parecido em outros. Pude finalmente ter discussões ricas sobre football (como eles chamam) em vez de soccer, uma palavra que para mim não deveria existir pois tira toda a magia do assunto. 


A cortina começa a se fechar. A ansiedade de antes de começar deu lugar à adrenalina do trabalho, que por sua vez agora cede espaço para uma nostalgia precoce. A aventura está acabando e a sensação é estranha. Por um lado, não vejo a hora de voltar pra casa, pros meus amores, pra minha cama, descansar, ver a família e os amigos, contar as histórias; por outro, já bate a saudade desse momento, da experiência, dos contatos, do aprendizado e da rotina de acordar toda manhã, montar em um tornado até o fim da noite, retornar para o hotel e aguardar o tornado do dia seguinte. A saudade quase insuportável dos primeiros dez dias, transformou-se em expectativa pela chegada, felicidade por tê-las perto, tristeza pelo contratempo (nossa casa foi invadida e saqueada na noite após o jogo Brasil x Chile), felicidade por tê-las por mais tempo que o previsto, saudade novamente e expectativa para a chegada da segunda-feira, quando as verei novamente.






Escrevo antes da final, sinceramente espero que o jogo seja bom e vença quem jogar melhor hoje. Seria a coroação de uma Copa que para a imensa maioria que trabalha há anos nesse evento está sendo considerada a melhor dos últimos anos em termos de emoção, qualidade, estrutura de trabalho, beleza e receptividade. Aprendemos muito, mas também ensinamos muita coisa.




Glad you came! See you in Russia, mate!


Cheers!


http://www.bluebus.com.br/bbc-se-despede-da-copa-com-1-clipe-guardar-pra-matar-saudades/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=bbc-se-despede-da-copa-com-1-clipe-guardar-pra-matar-saudades

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Bullying, ferramenta ou falta de educação



Eu sempre fui muito magro. Muito muito magro. A ponto de ser chamado de filé de borboleta. Comecei a usar óculos com 6 anos de idade, daqueles marrons com perna feito arame que davam a volta na orelha. Tinha sotaque carioca e morava no meio do Mato Grosso do Sul. Usava Bamba ou sandália de couro para ir à escola. Enfim, elenquei apenas alguns pontos da minha realidade infantil. Triste, né?

Não.

Digo não porque entre os meus amigos, aqueles que não tinham alguma(s) dessa(s) característica(s) tinham outra: o dente da frente separado; um cabeção; era gordo; falava fininho; etc. Todos tinham alguma característica com a qual não lidavam muito bem e pela qual eram sacaneados.

Recentemente ouvi em um programa de televisão a jornalista dizendo: “Brincadeira é quando os dois se divertem. Quando apenas um se diverte é sacanagem.”

Fui sacaneado. Fomos sacaneados. Recebemos apelidos, em casa ou fora dela. E em geral apelidos não ressaltam uma característica positiva do apelidado. E geralmente essa característica, que já não é positiva, é também física, ou seja, visível a qualquer um. Horrível, né?

Não.

Digo não porque se essas sacanagens foram e são responsáveis por alguns de meus desconfortos, elas também serviram de mola para meu amadurecimento, compreensão de mundo e das pessoas, escolhas que fiz e uma série de decisões de curto, médio e longo prazos que tomei ao longo do caminho.

Quem conhece um gordo triste, certamente conhece um gordo feliz; quem conhece um quatro-olhos triste, também conhece um quatro-olhos feliz; e o mesmo acontece com outras implicâncias físicas ou sociais. 

Paro aqui para fazer um aparte e deixar claro que não estou escrevendo a favor do bullying, estou me posicionando contra uma avalanche terminológica que passou a ser criada pelos “estudiosos” e que serve apenas nomear traços psicossociais de uma pessoa ou grupo (não entro aqui no mérito de certo ou errado) de forma a tratá-los como doenças. E o engraçado é que essas “doenças” parecem ter uma necessidade de cura mais prioritária que o câncer e a Aids por exemplo. 

Fico com a impressão de que coisas novas estão sendo criadas em vez de exercitarmos outras que já existem. Não acho que o bullying seja o problema, acho sim que existe uma tremenda falta de educação em todos os sentidos. Façamos um teste, quem faz o bullying? Quem é essa criança ou jovem? Os pais sabem? O que dizem e fazem a esse respeito? A raiz é essa. Transferir para o Estado, a justiça ou os médicos mais essa responsabilidade só fará com que tenhamos cada vez menos responsabilidade sobre o que é da nossa conta.

O fato é que com ou sem sacanagens ou bullying, essas crianças e jovens terão que lidar com as mesmas “imperfeições” ou “inadequações” que outras gerações tinham e que as seguintes terão. A diferença é que ao que me parece, os doutores, os órgãos oficiais e a sociedade de maneira opressora estão tirando a possibilidade de uma geração desenvolver individualmente, cada um a seu tempo (muito embora alguns talvez não venham a conseguir), suas próprias ferramentas para lidar com as sacanagens presentes e futuras, de maneira sadia, menos séria e com menos importância. Estamos, em todas as esferas e cada vez mais, privando pessoas em formação de desenvolverem suas próprias defesas, sua casca, seu raciocínio e reflexão. Poupá-las de tudo fará com que tenhamos em pouco tempo um bando de gente que – além de multitarefa, extremamente capacitado para o mercado, imediatista e de achar que os outros só estão no mundo para garantir a felicidade dele – estará em fila para se jogar da primeira ponte porque o(a) chefe, o(a) esposo(a) ou o(a) amigo(a) mostrou a língua e disse: “Seu bobo, chato, não brinco mais.”


terça-feira, 19 de março de 2013

A felicidade é um subproduto


Hoje li uma coisa interessante que veio ao encontro de uma sensação que tenho, dissonante do que pensam várias pessoas que conheço e inúmeras que desconheço.
 
Frases como “Agora eu vou ser feliz”, ou “Agora eu quero ser feliz”, ou “Resolvi ser feliz”, ou qualquer outra nesse sentido, e até mesmo a pergunta “Você é uma pessoa feliz?” me fazem responder internamente “Depende”.


Nunca pensei na felicidade como um lugar ou um estado a se estar e permanecer. Também nunca consegui entender essa falsa venda da felicidade, “eu quero ser feliz” e plim – pronto a pessoa agora é feliz. Quer dizer que quem não o é não deseja ser feliz?


Mas sempre foi uma discussão/conversa interna, uma questão de estabelecer princípios particulares. Acho que nunca tive essa discussão com ninguém que não fosse eu mesmo.


Cheguei hoje em um pedaço do livro que estou lendo e me deparei com um trecho de um filósofo inglês chamado John Stuart Mill:


“No início, eu não questionava a convicção de que a felicidade é a prova de todas as regras de conduta e o objetivo que se persegue na vida. Mas agora acho que esse objetivo só pode ser atingido não o tornando a meta direta. Só são felizes (a mim ocorre) aqueles que têm a mente fixada em algum objeto que não seja a própria felicidade: a felicidade de outras pessoas, a melhoria da humanidade ou, inclusive, alguma arte ou projeto que não se persiga como um meio, mas como uma meta em si ideal. Assim, fixando-se em outra coisa, encontra-se incidentalmente a felicidade [...] Pergunte a si mesmo se você é feliz e deixará de sê-lo. A única opção é considerar não a felicidade, mas algum outro fim externo a ela como o propósito de nossa vida. Deixe que suas reflexões, seu escrutínio e sua introspecção se esgotem nisso. E, se tiver a sorte de vê-los cercados de outras circunstâncias favoráveis, inspirará a felicidade com o mesmo ar que respira, sem se deter em pensar nela, sem deixar que ocupe a sua imaginação, e sem afugentá-la com interrogações fatais.”


A minha sensação está verbalizada nas palavras acima. Independentemente de qual seja o seu objeto de busca, de meta direta, essa dita felicidade não é nada mais nada menos que o resultado dessa busca. Cada um busca e vive pelo que deseja; os objetivos individuais, familiares e profissionais de cada um formam um conjunto singular de metas individuais de vida cuja proximidade ou alcance nos gera esse subproduto em maior ou menor volume durante um maior ou menor período de tempo – que para mim é intermitente.


Para mim uma pessoa não é feliz, ela está feliz. Umas mais vezes que outras, outras por mais tempo que umas; mas nenhuma delas acordou um belo dia e disse “Vou ser feliz por 7 meses e meio!” e... PLIM!


Você está feliz?


Eu?... Tenho estado.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ela chegou

Obviamente eu subestimei o trabalho que a pequena daria e por isso ainda não havia postado nada.

Maricota chegou finalmente, após uma longa espera e muita expectativa, ela chegou. 3,645kg e 50,5cm de gostosura.


Acompanhei o parto, tenso, aflito, nervoso. Mas ao contrário de todas as apostas, resisti bravamente em pé, ao lado da minha rainha, falando em seu ouvido, até que Mari fosse retirada. Neste momento, ergui a cabeça e vi a nossa filha chegar. A beleza do momento, registrado em fotografia e na minha mente, sobrepõe todos os aparelhos, o sangue, os médicos, o ambiente, tudo. Meu coração batia tão forte que eu literalmente o sentia e escutava.


Ela saiu, esboçou um choro discreto, foi enrolada e levada para o beijo e o seio materno, estava em casa. Eu, naquela momento me contentava com o papel de sentinela, fiscal, policial.


O pediatra a levou e antes que ele saísse da sala de cirurgia, perguntei ao meu amor se ela estava ok. A vontade era de me rasgar ao meio ali mesmo: queria estar ao seu lado passando tranquilidade e segurança; mas, ao mesmo tempo, o instinto me guiava para acompanhar a cria onde quer que ela fosse. Com a anuência semiconsciente da minha melhor metade, segui farejando o caminho e a cria. "Isso é pra que?", "Está ok?", "Isso é normal?", "É assim mesmo?", devem ter sido 4 das 153 perguntas que fiz ao pediatra e à enfermeira que a limpavam antes de mostrarem-na às avós e à tia.


Dispensado pelo pediatra, convenci a enfermeira que precisava ficar com minha esposa e ela me levou de volta ao centro cirúrgico. Como ela já estava sedada, foi convencido de que não fazia mais sentido continuar ali e subi ao quarto para duas horas de uma ansiedade absurda até que minhas duas jóias chegassem.
Mari foi para o banho e, depois, estávamos os três finalmente juntos.
Uma família se formava; uma vida chegava; duas renasciam para uma realidade que só é revelada àqueles que se dispõem à jornada.


Se estou feliz? Se perguntas é porque não falaste comigo ou não viste as fotos.




www.agorasoupai.blogspot.com

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Acabou

Acabou. Não tem mais jeito. Foram quase 16 anos juntos, mas a relação chegou ao fim. Só dei conta disso ontem, e me abati. Fui tomado por uma certa tristeza e uma saudade. Creio que normais nesse tipo de situação. Mas, pela primeira vez, após todos esses anos, percebi que não pertenço mais a você, que não estamos mais juntos.

Por conta disso, resolvi me despedir e agradecer, como costumo fazer. O relacionamento termina, mas não o reconhecimento, a gratidão e a alegria de termos caminhado juntos durante tanto tempo.

Tenho contigo a dívida da maturidade, pois você me proporcionou o rompimento do cordão umbilical com a casa dos meus pais e apresentou-me um livro em branco para que eu contasse uma história contigo.

Após vários capítulos escritos, agradeço a formação intelectual que me proporcionaste. Certamente, se a história fosse outra, talvez não fosse quem sou. A diversidade cultural à qual me expuseste foi uma potencializadora dos aprendizados na minha formação. E você, todos sabem, é uma das poucas que conseguem apresentar essa diversidade de maneira tão natural.

Obrigado por ter me apresentado, durante nossa relação, a pessoas tão maravilhosas e ricas. Estou certo de que, mesmo após esse término, muitas delas manterão contato e todas terão seu lugar guardado na minha memória.

Mas a minha gratidão mesmo reside em você ter sido tão compreensiva e generosa a ponto de aceitar em nossa relação um amor antigo. Não apenas aceitar, mas proporcionar meios para que esse antigo amor vingasse de uma vez por todas.

De certa forma, essa tua generosidade alimentou uma nova relação na qual você fatalmente perderia seu espaço com o passar do tempo. Todos nós sabíamos que você era o elo mais frágil nesse triângulo. E o que era uma possibilidade, concretizou-se, e você me perdeu, nos perdeu.

Nossa relação termina aqui. Ficaremos com as lembranças, as boas e as ruins. Ficaremos com os aprendizados. Fique com todo o resto. Neste momento só quero levar comigo este livro que estou por finalizar para guardá-lo em lugar de destaque em nossa estante.

A dor dessa separação só não é maior que a alegria de ver um novo livro, recém aberto e pronto para ser escrito, cujas primeiras páginas já trazem a alegria e a renovação em forma de uma nova personagem.

Bem, é isso, nos vemos por aí. Se cuida. Seja e faça feliz! Como nos fez durante todo esse tempo.

Obrigado Rio!


domingo, 12 de junho de 2011

Feliz Dia dos Namorados

Então, a música é de um disco lançado em 1989, mas que eu (e você provavelmente) cantava verbal e mentalmente, sozinho ou com amigos, à exaustão entre 1991 e 1994.

Consigo me lembrar de tê-la cantado várias vezes pensando numa pessoa. Tentando entender que sentimento e sensação louca era aquela que tomava conta de um adolescente idiota – com o perdão da redundância e o reconhecimento da necessidade de sê-lo –, cantava-a com a intensidade de quem queria que a compreensão daquilo se fizesse realidade.

Não lia a Bíblia, não conhecia nada de Camões, mas Renato tentava pacientemente me explicar. Tão pacientemente que tentou fazê-lo por outras composições. Ele partiu e eu continuei tentando, na literatura, no cinema, em outras músicas.

Se pudesse estar com ele hoje, diria: Ainda que tenha procurado em diversas fontes, nunca encontrei uma explicação como a tua. Muitas complementaram-na, muito poucas se aproximaram da preciosidade dos detalhamentos. Obrigado. Posso dizer-te que entendi, mas não me peça para explicar.

E nesse dia dos namorados, queria cantá-la para aquela pessoa, que hoje carrega uma pessoinha, que é do que a materialização daquilo que Renato tentava me fazer entender.

Meu anjo, 19 anos depois da primeira troca de olhares e uma linda e longa história depois disso, continuo teu namorado, continuo teu amigo, continuo teu marido e, em breve, passarei a ser pai da sua filha. E mesmo depois disso tudo, se fechar os olhos, consigo sentir tudo o que sentia lá atrás. E mesmo que eu fale a língua dos homens, sem você eu nada seria.

Feliz dia do namorados!


terça-feira, 3 de maio de 2011

domingo, 1 de maio de 2011

Bodas de Papoula

E não é que sobrevivemos à crise dos sete anos?! E posso dizer que muito bem obrigado. Nesse ano de "crise", tivemos algumas grandes conquistas, e a proposta de um desafio enorme que resolvemos encarar. E tenho pra mim que por termos tido tamanha ousadia, como bênção, recebemos a Mariana.
Então, parabéns meu anjo e obrigado por oito anos maravilhosos.
Como sempre trocamos músicas, segue uma pra nossa comemoração à distância de hoje.
Corny? Possibly. Truthful? For sure.
Te amo.

Vídeo retirado em razão da determinação do Ecad de cobrar para reprodução de vídeos do Youtube.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Semana Santa

Neste feriado da Semana Santa pude ir visitar meus amores após mais de 40 dias afastados. Além da alegria dos quase cinco dias juntos, gostaria de destacar três momentos deveras importantes.

O primeiro: Mariana deu seu primeiro chute (eu tenho pra mim que foi cabeçada) no momento em que o He-Man tricolor marcava o terceiro gol em mais um jogo histórico tricolor (no qual nos classificamos bravamente para a fase seguinte da Libertadores deste ano). Aos céticos, tenho prova e testemunho - a mãe da criança sentiu na mesma hora e eu repousava a mão sobre a barriga. Conclusão, Mariana é definitivamente tricolor desde pequenininhainhainhazinha. Assim, como a mãe, é uma mulher que sabe escolher o que há de melhor.

O segundo: Mamãe e Mariana nas areias e na praia do Leblon estava tudo de bom. Se alguém tivesse filmado concorreria a Oscar de melhor fotografia.

O terceiro: Ter de deixar essas duas pra trás está se tornando cada vez mais difícil e doloroso.

O que me resta é agarrar-me na expectativa da indescritível sensação que experimento toda vez que a(s) vejo quando chego.

Até lá...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Don’t hate the player, hate the game

Os últimos casos políticos de destaque na semana, o do Tiririca em um resort com dinheiro público e o de Romário nomeando uma atriz pro seu gabinete, me chamaram a atenção pelo ridículo. E nesse caso, pra mim o ridículo não é o fato em si, mas o estardalhaço que a imprensa faz. Gera audiência, vende jornal, as pessoas comentam e pluft, desaparece feito o Gasparzinho.
Acho engraçada essa condenação e apontar de dedos na esfera política. Essas coisas só acontecem porque as regras do jogo permitem. E se você não tem discernimento, passa a utilizar a engrenagem para benefício próprio e dos seus.
 
Veja bem, não estou defendendo o que foi feito nos dois casos, mas se foi feito é porque é permitido. Se o sujeito recebe uma penca de dinheiro desnecessário para o seu gabinete, obviamente ele gastará aquilo de forma desnecessária. Se permitem a um deputado contratar quem ele quiser pro gabinete, ele certamente fará uso desse direito da forma como lhe convier.
Na minha visão, então, é mais uma questão de se mobilizar mais para cobrar uma reforma política e de investir na educação. Dessa forma, ou a regra do jogo impede tais situações ou a formação moral e intelectual dos que votam e dos são votados impede os nobres colegas de fazerem uso de subterfúgios para as situações amorais e imorais às quais se submetem muito deles.
Do contrário, passaremos a eternidade apontando o dedo, mas sem colocá-lo na ferida.